segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

NUNO DELGADO-UM AMIGO, UMA REFERÊNCIA

Nuno Delgado – Treinador da selecção no tempo de Esperança (Cadete) do Tiago

“É um tema um pouco difícil de abordar para mim, porque o Tiago por todas as razões e mais algumas foi sempre uma pessoa muito especial. Foi um atleta que eu tinha como referência na selecção. Lembro-me que eu fui treinador dele em esperanças (cadetes), e ainda o apanhei em algum período de juniores, independentemente de tudo aquilo que se passou, e da história que ele teve, do destino que ele teve, o Tiago para mim foi daqueles atletas prefeitos, porque era uma pessoa amiga do seu amigo, era uma pessoa que trazia um bom ambiente para a equipa, era uma pessoa muito sensata, trabalhadora, fanática pelo judo, sua grande paixão. Era uma pessoa que tinha muito talento e que podia vir a ter uma grande carreira. O destino assim não o permitiu, mas mesmo assim, mais uma vez, o Tiago provou a toda a gente aquilo que nós todos os dias estamos a aprender, que não há projecção nenhuma que não nos permita levantar. E ele levantou-se.

Eu tive o grande prazer de partilhar alguns momentos com o Tiago dois ou três dias antes de ele partir. A primeira coisa que ele me disse foi que"queria voltar a treinar", assim que as coisas melhorassem, e que tinha grandes expectativas de voltar a estar ao mais alto nível. Também gostaria muito de voltar a pisar a areia da praia e sentir o ar do mar. Isso para mim foi algo que me sensibilizou muito, porque ás vezes nós vemos pessoas que têm tudo para ser felizes, e não valorizam o dia-a-dia.O Tiago naquele momento já não tinha nada, já não tinha mesmo nada, mesmo assim continuava a viver, a lutar, com aquela alegria, com aquela forma de estar impressionante. Era ELE que uma vez mais acabava por dar motivação e alegria ás pessoas que estavam à sua volta, que estavam de rastos. Se eu, era assim que me sentia, imagino a família, como é que atravessaria esses momentos, mas na verdade foi o Tiago que uma vez mais nos deu algum conforto para ultrapassar esse momento tão difícil. A sua dignidade e postura até ao último momento foi tão grande que realmente ajudou as pessoas a minimizar esses momentos horríveis. Devo dizer que para mim foi muito sensibilizante, porque o Tiago era aluno do mestre Matias, pessoa por quem o Tiago tinha uma grande estima, e eu acompanhei de muito perto esses dois terríveis momentos. Foram dois momentos muito tristes para o judo nacional e por alguma coincidência eles aconteceram assim, perto de mim. Eu acho que o Judo também precisava de uma história destas para nos fazer repensar um pouco, e que a vida do Tiago não seja esquecida, que esteja sempre presente para nos lembrar realmente com o exemplo dele aquilo que temos e devemos fazer.”

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

UM SONHO INTERROMPIDO...


Aos pais do Tiago, Horácio e Margarida Alves

Quis deixar passar algum tempo antes de escrever e enviar este texto. A homenagem ao Tiago foi um momento de muita emoção para todos os presentes e, de certeza, ainda mais duro para os pais.

Queria dizer-vos que na carta do vosso filho vejo um Tiago corajoso e decidido a seguir o seu sonho. Com pena de deixar uma realidade que conhece e gosta, para seguir um sonho, que infelizmente foi interrompido. Ter recebido por parte do Tiago esta e outras cartas, teria significado que o percurso dos acontecimentos teria sido bem diferente.

Como professores criamos muitas vezes laços com os nossos alunos, mas nem sempre nos apercebemos o quanto, sabe-se lá porquê, podemos ser importantes para algum em especial. Também a turma do Tiago (e serão sempre os colegas do Tiago) foi especial e o Tiago nunca será esquecido.

Para mim será sempre:

- o Tiago que nas visitas de estudo fazia a festa e punha toda a gente bem-disposta;

- o Tiago que tocava viola nos intervalos;

- o Tiago que me pegou ao colo no fim de uma demonstração de judo;

- o Tiago que entrava na sala a cantar “ Quem é o gostozão daqui? Sou eu. Sou eu”;

- o Tiago que, com naturalidade, expunha as dúvidas características de um jovem adolescente;

- o Tiago com quem também me zanguei (faz parte), mas sempre por pouco tempo, como era de nosso feitio.

Vou recordar um aluno cheio de energia e alegre, que como todos os outros, também tinha os seus momentos menos felizes, mas que enfrentava com coragem as adversidades, como quando fez a cirurgia de reconstrução. O Tiago era único e um colega querido pelos outros.

Infelizmente (ou felizmente) não estive presente nos últimos dias de vida do vosso filho e talvez por isso, como vos disse, para mim é irreal o que lhe aconteceu. A vida ou o destino (sei lá!) foi injusta e cruel, com ele e convosco, que foram uns pais sempre atentos e presentes na vida dele. Não me esqueço que, para com a escola, actuaram sempre numa postura de colaboração de resolução de todas as situações, o que infelizmente, nem sempre acontece. São os pais que qualquer jovem gostaria de ter.

Diz quem sabe, que a dor de perder um filho não se supera, no entanto, desejo do coração, que o tempo vá tornando a vossa, pelo menos suportável.

Até sempre e sempre ao vosso dispor

Dulce Dias

domingo, 2 de outubro de 2011

“ Isto não é um adeus, é um até já!”



Ainda me lembro da 1ª vez que vi o Tiago… Foi num Open em Lisboa, quando ainda éramos Esperanças. Recordo-me de ter ficado com a impressão de que o Tiago era um rapaz bruto. Não sei porquê, achei que tinha ar de mau e um ar muito sério. É uma parvoíce, agora sei, mas foi a 1ª impressão com que fiquei. Talvez tenha ficado com tal impressão, pois quando se compete a nossa expressão facial não é igual à que utilizamos no dia-a-dia.
O Tiago foi e é na verdade um ser humano completo e especial em todos os níveis. Refiro-me a todos os níveis que nos tornam pessoas boas e íntegras. Ele é pois bem a definição de pura bondade. O seu coração não possuía fronteiras nem limites. Além de íntegro e bondoso o Tiago era muito brincalhão e caloroso para com o próximo. Era também bastante educado e gentil para com as pessoas.

Boa disposição e atitude descontraída eram duas características-chave e fundamentais da personalidade do Tiago.
Além de tudo o que já referi, quero realçar que o Tiago era muito honesto e fiel aos seus princípios e ideais. Era rapaz de algumas paixões, mas duas das mais fortes eram sem dúvida o amor que detinha pela Vida e o amor que possuía pelo Judo. A elas se agarrou com “unhas e dentes”.
O Judo era uma grande paixão do Tiago. O Tiago sempre fez Judo com muita determinação, com muita força de vontade e sobretudo com muito gosto. O Judo era o modo de vida do Tiago e o que mais amava fazer. O Judo estava intrínseco no Tiago. Sobretudo trazia-lhe alegria e satisfação. O Tiago tinha de facto o código moral do Judo bem enraizado na sua maneira de ser. Cumpria-o mesmo sem dar conta. O espírito de sacrifício também sempre se encontrou no ser do Tiago. Sempre trabalhou muito para conseguir tudo o que alcançou; privando-se muitas vezes de fazer coisas próprias de jovens da nossa idade, privando-se muitas vezes da companhia daqueles que mais amava e ama. No entanto fazia-o por amor à sua paixão, o Judo, e isso torna-o um exemplo de força e dedicação. Trabalhou sempre sem prejudicar o próximo.
Quando as coisas não corriam bem, o Tiago nunca baixava os braços. Desistir não era de todo vocabulário que o Tiago sequer pronunciasse. Continuava a trabalhar afincadamente, esperando colher os frutos do seu trabalho. Esta sua característica não se aplicava somente ao Judo, mas sim a todos os projectos de vida do Tiago. Por estes motivos, considero o Tiago a pessoa mais perseverante que alguma vez conheci e uma das mais fortes.
Infelizmente, o nosso Tiago foi possuído por um monstro vil e cruel: o cancro. No entanto, a sua força e perseverança, características muito próprias dele, evidenciaram-se ainda mais! O Tiago deu imensa luta a esse monstro. Era o próprio Tiago que com a sua delicadeza e que com o seu arrasador sorriso, nos dava força para apoiá-lo e para sermos positivos. O seu sorriso iluminava os corredores do IPO. Mas Deus, ou algo semelhante, se existir permitiu que o monstro se apoderasse dele e levasse a melhor. Não deixou o Tiago fazer o seu magnífico uchimata. Deixou o vil e cruel monstro atacar… No entanto, o Tiago venceu na mesma, pois semeou nas pessoas uma mensagem de esperança, força, determinação e coragem.

O Tiago será sempre jovem.
Nunca morrerá!

Estará sempre vivo naqueles que o conheceram, naqueles que gostavam e gostam dele e naqueles que com ele conviveram.
Eu tenho muitíssimo orgulho em ter sido colega de modalidade, amiga e sobretudo namorada do Tiago.


“ Isto não é um adeus, é um até já!”

Andreia Amaro

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

TIAGO ALVES-Um amigo, um atleta, um exemplo...






Tiago Alves deixou de estar entre nós, vítima de uma doença que de uma forma cruelmente rápida e impiedosa o derrotou no combate da sua vida. Ainda este ano, em Abril, Tiago Alves conquistava na Estónia um brilhante 3º lugar que lhe abria as portas ao tão desejado Estatuto de Alta Competição. Em Maio, Tiago ainda defenderia as cores da Académica no Campeonato Nacional de Equipas Seniores.Nascido a 14 de Janeiro de 1992 em Lisboa, Tiago Alves nasceu com fenda do palato, situação que levou a 7 cirurgias ao longo da sua vida até à correcção total.Aos 6 anos de idade, Tiago teve o seu primeiro contacto com o desporto no Colégio D. Afonso V, o Judo. Desporto que praticou até aos 11 anos com o Prof. António Matias (Seleccionar Nacional).Em Setembro de 2003 Tiago e a sua familia, mudam-se para Lamas, em Miranda do Corvo, passando a treinar na secção de Judo da Académica (AAC) na classe de Juvenis três vezes por semana, com o imprescindível apoio de seus pais, Horácio e Margarida Alves. Sempre assiduo e trabalhador, Tiago era um aluno empenhado e persistente, conquistando na maioria das vezes o pódios dos torneios distritais em que participava, sendo a sua primeira internacionalização em Salamanca onde conquistou o segundo lugar (2004).Em 2006 começa a carreira nacional, quando se sagra campeão nacional de juvenis na categoria de -66 kg, dando-lhe acesso aos trabalhos da selecção, que não viria a abandonar. Em 2007 sobe ao escalão Esperança e participa no circuito europeu, acompanhado pelo seleccionador nacional Nuno Delgado (3º lugar JO Sidney) ganhando experiencia que lhe viria a conceder o titulo de campeão nacional no ano seguinte (2008) na mesma categoria, ano em que alcança a graduação de cinto negro.No circuito europeu consegue dois lugares de destaque: 3º lugar em Fuengirola e 3º lugar no Torneio Internacional de Portugal, em Miranda do Corvo.

Em 2009, já no escalão de Juniores classifica-se regularmente nas provas nacionais e consegue um excelente 3º no Tor. de San Lorenzo, prova de Sub 23.





Nesse mesmo ano ajuda a equipa Senior da AAC a conseguir um histórico 3º lugar, sendo o titular indiscutivel na categoria de -66kg, uma das mais competitivas. Defendeu de forma brilhante o seu clube na Taça dos Campeões Europeus, tendo conseguido no combate com a equipa francesa uma vitória pela vantagem máxima "IPPON"


Ainda em 2009 altura em que transita para o 12º ano e muda para a Escola Avelar Brotero, é seleccionado para fazer parte do grupo restrito de atletas a integrarem o projecto do Centro de Alto Rendimento, da Câmara Municipal de Coimbra, cujo treinador responsável é João Neto (Campeão da Europa em 2008). Em 2010 sobe novamente ao pódio no campeonato nacional de juniores com um 3º lugar, e no circuito europeu consegue também um 3º lugar na Taça da Europa Juniores de Tartu (Estónia) , em Abril,que lhe abre as portas ao estatuto de alta competição.Embora nem sempre as coisas lhe corressem com desejava, foi uma atleta que nunca desistiu dos seus objectivos, tendo para com o desporto e com os seus amigos uma dedicação impar. A humildade, perserverança e o espirito de sacrificio foram atributos que fizeram dele um vencedor.Além de atleta exemplar, Tiago Alves foi também sempre um aluno aplicado passando sempre de ano com boas notas, mesmo tendo que conciliar os fins de semanas de provas, estágios ou o regime de treinos bi-diarios do centro de alto rendimento.No clube além das centenas de treinos era um grande amigo, um companheiro com o qual se partilharam tantos momentos de camaradagem, tantas emoções, tantos sonhos.Após lhe ser diagnosticado cancro do estômago, lutou sempre com “unhas e dentes para agarrar a vida”. Sempre com um pensamento positivo, sempre com confiança, até ao fim.

Tiago Alves foi, e é, um exemplo de dedicação.



(texto retirado do site de judo da AAC)

UM MUITO OBRIGADO Á "AAC-JUDO"

(Publicado por Horácio Alves)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Tenho muitas saudades tuas - João Neves

Tenho muitas saudades tuas - João Neves


Faz este mês (Julho 2011) um ano que o meu coração teve a noticia mais triste de toda a minha vida, ainda hoje sinto a dor da notícia e ainda hoje por vezes penso que isto não passa dum pesadelo, como é possível o meu querido amigo Tiago ter morrido desta maneira.
Todos os dias me lembro dele, ás vezes até com simples brincadeiras ou com uma imagem, qualquer coisa serve para voltar a recordar o meu amigo.
Passámos muitas coisas junto, vivemos vitórias, chorámos derrotas e partilhámos sonhos. Lembro-me que quando éramos novos o nosso treinador que na altura era o Nuno Silva disse-nos que um dia iriamos ser uma grande dupla e ele tinha razão.

Ao modo que fomos crescendo o nosso talento pela modalidade também aumentou mas notava-se muito bem que, o do Tiago era muito maior do que o meu, mas a sua humildade nunca lhe permitiu deixar-me para trás e sempre que eu estava triste o desanimado lá está o meu companheiro para me renovar a alegria.

Já á muito tempo que o Tiago para mim era muito mais que um amigo, muito mais que um companheiro, até mesmo muito mais que um irmão, o Tiago fazia parte de mim aquela presença no treino era fundamental para o rendimento, se havia pessoa capaz de mudar as minhas emoções e as minhas ideias era ele, ele até conseguiu que eu entrasse no centro de alto rendimento e mais uma vez era ele que treinava comigo e puxava por mim quando eu baixava o ritmo.
Se me pedirem para descrever o Tiago apenas por adjectivos, não é um pedido nada fácil pois são muitos os adjectivos que posso utilizar por exemplo:
- Corajoso
- Leal
- Humilde
- Companheiro
A lista seria infinita
Eu sei que nada posso fazer para apagar a dor dos corações do meu querido amigo Horácio, da minha querida Margarida nem do grande Rui, mas posso fazer com que as pessoas nunca esqueçam o Tiago e isso garanto que vou fazer, enquanto for membro da secção de judo da AAC garantirei que o nome Tiago Alves ficará para sempre gravado nas paredes da nossa sala de Judo.
Nunca desistam de lutar, de viver nem de sonhar pois o Tiago nunca desistiu de fazer nenhuma destas coisas.
Tenho muitas saudades tuas meu irmão
Até sempre
João Neves

sexta-feira, 1 de julho de 2011

TIAGO ALVES - GRANDE HOMENAGEM

Hoje dia 20 de Julho de 2011. Doze meses que partiste.


-É difícil passar uma hora que não pense em ti………
-É difícil não recordar a pessoa que és, sim que és pois em mim continuas vivo e no teu melhor.
-É difícil aceitar tudo o que estamos a passar com esta tua ausência meu Filho.
-Foi tudo tão rápido, foi tudo tão complicado. Cada noticia pior que a anterior, cada exame, cada análise, um aperto contínuo no peito.
-Meu grande Amor, meu FILHO.
-Como foi possível estar tudo a acontecer á frente dos nossos olhos e não nos termos apercebido da gravidade, como?



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TIAGO ALVES - SAUDADES


É difícil dizer que o Tiago foi um bom filho.
É difícil dizer que o Tiago foi um bom amigo.
É difícil dizer que o Tiago foi um bom atleta.

Se algo aprendi, durante estes meus 50 anos de vida, é que damos tudo para criar um filho, faze-lo crescer o melhor possível, mas que a cada dia, a cada hora e a cada minuto, também nós, crescemos com ele.
Se algo aprendi com o Tiago é o significado da palavra amor, amizade, cordialidade, respeito, companheirismo e sinceridade.
Não me é fácil dizer se o Tiago foi o melhor filho do mundo. Todos são diferentes e todos têm os seus encantos.
Não sei se o Tiago foi o melhor judoca do mundo. O que eu conheço de Judo é do lado de fora do tapete.
Ouvi de inúmeros colegas, treinadores e professores que com ele lidaram, os mais rasgados elogios. E isso via-se, invariavelmente, nos resultados obtidos.
Não sei se o Tiago foi sempre o melhor amigo . Sei que ele tinha muitas pessoas que o rodeavam e que ele considerava amigos.
Sempre tratou todos, indistintamente, com correcção e respeito, desde adversários, colegas, treinadores.
Não me é fácil falar do Tiago no passado porque ele continua comigo, connosco, a cada recordar do seu sorriso, de uma história, de um abraço.
O Tiago é o meu melhor amigo. Passámos anos juntos em viagens para os locais onde ele se sentia á vontade. Passámos anos juntos em percursos entre o treino de judo e a casa, entre as competições e a casa, entre uma conquista e uma derrota.
Nunca, o Tiago, quis que nós, pais, não fossemos a algum lugar com ele. Sempre nos pedia para o acompanhar, para estarmos presentes em todos os momentos que julgámos que para ele eram marcantes.
Tivemos esta honra, em contrapartida, estamos tristes pois nosso desejo era tê-lo, o que infelizmente, não nos será possível. As nossas vidas são como os icebergs, estão submersos, não se vêm, e as partes visíveis são muito pequenas.
O Tiago foi o bater do nosso coração, o respirar do nosso corpo e sempre tentámos que ele fosse alguém bom, honesto e respeitador.
Até certo momento educámos o Tiago o melhor que podemos, mas como em qualquer relação entre pais e filhos, também ele nos educou.
Hoje sinto-me mais culto, mais homem, mais pessoa depois de ter com ele vivido 18 anos.
Ensinei-lhe tudo o que podia, mas o Tiago a mim ensinou-me coisas que ninguém me poderia ensinar.
Tive o privilégio de o ter como meu filho, como meu amigo como meu cúmplice durante estes curtos e tão rápidos 18 anos, mas como me foi dito pelo Dr. Nuno Abecassis “OS FILHOS NÃO SÃO NOSSOS:”
O Tiago ensinou-me a valorizar a vida, a não me queixar de coisas tão pequenas que nos acontecem e que por vezes nos queixamos. Ao lado de grandes problemas, as pequenas coisas da vida não são assim tão importantes.
O Tiago ensinou-me a ser forte, a encarar os dias um a um, ensinou-me a ter objectivos realistas. Ensinou-me o verdadeiro significado da palavra lutar. Não uma guerra armada, mas lutar por algo grande como para ele era o sonho OLÍMPICO. Ensinou-me a lutar por algo verdadeiramente valioso, a vida.
Ensinou-me muito. Posso dizer que talvez me tenha ensinado mais a mim do que eu a ele.
Ensinei-o a caminhar, a andar de bicicleta e muitas outras coisas. Mas O Tiago ensinou-me que a esperança nunca morre, nunca a podemos perder e que de uma maneira ou de outra tudo o que acontece, acontece por uma razão.
É duro perdermos um filho. Não o vou negar ou dizer que não sinto a falta do meu grande amigo, do meu filho, do meu Tiago. Perdemos uma parte de nós, da nossa alma, da nossa vontade de viver e da razão da nossa vida.
É duro ver partir alguém tão novo, sem oportunidade de viver a vida que tinha pela frente, sem oportunidade de deixar um pouco da sua sabedoria com os outros.

É duro acordar todos os dias, olhar a foto dele, olhar o seu quarto, as suas coisas e aguardar que ele chame o nosso nome para o levarmos à escola ou a um treino.
É duro olhar em volta, ver o mundo que ele deixou ficar e não encontrar o seu sorriso, a sua boa disposição, o seu gosto de viver.
Hoje vou tentando habituar-me a uma nova rotina, a uma nova vida, mas não é fácil.
O Tiago era alguém bom, alguém que me fazia bem e a quem nunca vi ter uma má atitude para com ninguém. Sabia pedir desculpa quando necessário, sabia confortar quando era preciso e sabia o que queria da vida.
O Tiago não cumpriu o sonho de ir aos Jogos Olímpicos, bem como outros que tinha. Mas eu sei que ele fez tudo para lá chegar.
Faleceu a fazer aquilo que mais amava – JUDO.
Ele amou acima de tudo a família, mas amou também o Judo desde o primeiro momento em que subiu ao tatami.
O Tiago foi, até ao último momento, um lutador. O bicho que o atacou levou muita pancada, acreditem. Acreditou sempre nas pessoas que o rodeavam, acreditou sempre que ia vencer, e só acreditando é que temos capacidade para nos superarmos e sermos vencedores.
Hoje ainda recebe mensagens no seu blog de pessoas que admiram a sua coragem, a sua determinação, o seu empenho em vencer. Ainda recebe mensagens de pessoas que ali procuram energia para ultrapassar os seus momentos menos bons.
O Tiago é essa força, é e sempre será o meu motivo de orgulho, porque mesmo agora ainda consegue ajudar os demais.
Tiago, meu filho, o amor que temos por ti é imensurável, mas a tua pegada na terra também.
Tenho orgulho no Tiago, no meu filho, não só pelo que ele fez mas pelo que ele continua a fazer.
Obrigado por teres sido tão bom filho. Obrigado por me teres feito crescer. Obrigado por tudo o que continuas a fazer por todos nós.
Tenho vontade de te ir buscar á escola, mas a tua ausência não deixou.
Tenho vontade de te ir buscar a um treino, mas a tua ausência não deixou.
Tenho vontade de te ver sorrir, mas a tua ausência não deixou.
Fecho os olhos e tento dormir, mas aquela dor não deixou.
Oh meu anjo da guarda, faz-me voltar a sonhar.
Guarda o meu menino até um dia o reencontrar.

Obrigado meu querido filho " TIAGO ALVES".


29 Novembro de 2010
( HORÁCIO ALVES/ANTÓNIO COSTA )

quarta-feira, 1 de junho de 2011

CARTA A UMA PROFESSORA !

Tiago Alves
26 Setembro 2009
Olá Stora!

Em primeiro lugar quero agradecer a paciência que teve para me aturar e para me ajudar estes últimos anos.
A Stora é uma pessoa fantástica e eu nem sei como agradecer o que fez por mim.
Infelizmente não vou poder passar o meu último ano de secundário na escola que me “acolheu” durante 6 anos, que passaram num instante, ao pé das pessoas á qual criei uma forte amizade.
Mas é assim, a vida é feita de desafios e este ano vou passar a uma nova fase da minha vida.
Esta foi a oportunidade que eu sempre desejei para a minha carreira desportiva. Para além de ter treinos bi-diário e de ter um trabalho personalizado, estou a ser acompanhado pelo João Neto, atleta olímpico e campeão Europeu. Claro, não pensei duas vezes.

Foi uma mudança radical na minha vida, mudar de escola, ter treinos bi-diários, passar dias inteiros em Coimbra. Não está a ser fácil, mas acho que estou a conseguir conciliar tudo com maturidade e de forma organizada. Só espero não me ir abaixo. Estou a ser acompanhado também por um psicólogo, que me está a ajudar a saber gerir os meus dias e a saber conciliar tudo, mas também me está a ajudar a ultrapassar o grande problema que eu tenho de baixa auto-estima, para não acontecer o que aconteceu o ano passado e, este ano andar sempre de cara alegre, como todas as pessoas me conhecem.
A Stora sabe que o Judo é a minha grande paixão, o meu vício. Todo este sacrifício, todo este trabalho, é tudo com o objectivo de realizar um sonho. Trabalho sempre até à exaustão, nunca estou satisfeito com o bom, quero sempre o excelente, há sempre coisas a melhorar, há sempre pormenores. Neste momento o meu principal objectivo é conseguir estatuto para conseguir entrar na Universidade, depois não me importo de abdicar uns aninhos da faculdade, para me dedicar a 100% ao Judo.
Estou com um mês e meio de trabalho intensivo e os resultados já estão a aparecer, participei no Campeonato da Europa pela AAC e, fiquei em 3º num torneio Internacional sub 23 em Espanha.

Eu acho que está a ser muito bom, tendo em conta que tenho 17 anos e estas competições são de um escalão superior ao meu. Mas há sempre pormenores a corrigir.
Por agora não tenho mais noticias para dar. Espero que esteja tudo a correr bem consigo, vou-lhe mandar mais cartas destas de certeza. Acho que a Stora não se importa.


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Um grande beijinho!

Tiago Alves


(Publicado por: Horácio Alves)

domingo, 1 de maio de 2011

Existem dias (fod…) lixados !


Dias em que pensamos em tudo: na nossa existência, na existência dos outros e na importância da existência dos outros para connosco.

Vou ser sincero, eu vivo muito nestes dias, as pessoas pensam que a minha vida é um mar de rosas, mas não… para ter um dia como um mar de rosas, tenho de ter vinte dias (fod…) lixados.

Às vezes questiono-me se serei uma espécie de autista e que ninguém irá compreender o meu mundo…
Para ser sincero, eu gosto de ter dias (fod…) lixados… Sim! São estes dias que me fazem crescer e ver o mundo como ele realmente é. Gosto de olhar para as pessoas e interpretar o seu olhar e sim, gosto muito do meu mundo autista…

Faz pouco tempo que ouvi das piores coisas que me podiam ter dito e desde ai que não consigo sorrir nem dormir bem… Sinto-me um lixo a toda a hora, mesmo depois de ter conquistado uma das medalhas mais importantes da minha vida…


Eu sei que vou calar a boca a muita gente…
Estou farto de ser o bonzinho, de ser simpático e amável para todos e de não receber a sinceridade dos outros… às vezes penso que tenho de ser cabrão para atingir os meus objectivos. E é isso que vou fazer, com a minha humildade, vou calar a boca a muitos…
Tiago Alves 26 Abril 2010

(Publicado por : Horacio Alves)
Caros amigos, cumpre-me informar que este foi o ultimo texto que o Tiago nos deixou.
Tentarei dar continuidade ao seu blog, não tendo eu de todo a inspiração e dom que o Tiago revelou ao longo destes seus apontamentos.
Agradeço a todos os seguidores e, a todas as pessoas que deixaram sempre palavras de conforto e carinho. Forte abraço………..
Horácio Alves.

sábado, 2 de abril de 2011

Não se voa pela montanha acima.


“Não se voa pela montanha acima. Luta-se lenta e vagarosamente para subir a montanha, e, se se trabalhar arduamente, talvez consigamos chegar ao cimo antes dos outros” “ Faz de cada obstáculo uma oportunidade” “Faz o Negativo, Positivo”

Lance Armstrong “Vontade de vencer”


Amanhã será um dos dias mais importantes da minha vida. Poderei ganhar estatuto de Alta-Competição para poder entrar na Faculdade no curso que eu desejo mais, que é Fisioterapia. Mas mais do que isso, vou poder salvar a minha honra, vou poder mostrar a todos que consigo ganhar a qualquer um que me apareça à frente. Melhor ainda, poderei tirar o gosto amargo do Campeonato Nacional e passar por cima de todos os meus adversários. E para melhorar mais a situação, poderei conseguir os mínimos para o Campeonato da Europa e do Mundo de Juniores.

Não é maravilhoso? Num só dia poderei viver tantas emoções, que até tenho medo da minha reacção se ganhar a prova. Amanhã estarei presente na Taça da Europa de Juniores em Coimbra. É considerada a prova mais importante do calendário nacional. Estão presentes países como a Eslovénia, Republica Checa, Espanha, Brasil, Irlanda, Moldávia, Noruega, Luxemburgo, Suíça, Croácia, Alemanha e claro Portugal. Hoje foi o primeiro dia da prova e eu cometi o erro de ir assistir, pois comecei a ficar um pouco nervoso. Portugal não conseguiu nenhuma medalha de ouro apenas duas de prata e duas de bronze. Uma das medalhas de bronze é do meu colega de equipa Antoine Massart. Ele sem duvida que mereceu esta medalha, trabalhou bastante e tudo o que ele queria era o estatuto. Conseguiu! Eu de certa forma estou orgulhoso, mas tenho de ser sincero: quero fazer melhor que ele. Aliás a vitória dele apenas serviu para me dar mais pica. Estive com o meu psicólogo João Arruda e ele ajudou-me a descontrair. Não sei porquê, nem como, ele consegue deixar-me mais calmo antes da prova, estivemos a conversar e as suas palavras entravam-me na cabeça e ficavam lá dentro de tal modo que conseguia ficar mais relaxado e parece que nada é difícil, apenas nós avaliamos o que é ou não difícil. As coisas simplesmente são, nós é que atribuímos um significado. Sempre que estou em véspera de competição, costumo estar com as mãos e o queixo a tremer, mas, curiosamente não sinto nada disso neste momento. Apenas estou com ganas para amanhã. Estou com uma enorme vontade de competir amanhã. Não sei o que vai acontecer! Não sei se vou perder logo no primeiro combate ou se vou ganhar a prova. Apenas quero mostrar quem sou eu… quero mostrar quem é o Tiago Alves e quero tirar o peso que está nas minhas costas.

Vou-me encontrar no primeiro combate com Walbercy Aiva do Brasil. Não o conheço, mas ele também não me conhece, por isso estou bem. Sinto que consigo fazer uma boa prova e como referi em cima, “…se se trabalhar arduamente, talvez consigamos chegar ao cimo antes dos outros”. Eu tenho a consciência tranquila. Sei que trabalhei arduamente para esta prova. Trabalhei tudo o que poderia trabalhar, não há mais nada a fazer a não ser estar em cima do tapete e mostrar o trabalho que foi feito, não cometer erros e divertir-me! À muito tempo que não me divirto numa prova e estou com o feeling que vai ser amanhã. Gostava de dar às pessoas que vão assistir à prova um bom espectáculo de judo. Quero fazer muitas projecções e marcar muitos ippons. Esta prova como disse vai ter um peso importante na minha vida e quero usar esse peso como forma de conseguir forças e inspiração para o combate. Se algo não correr bem. Apenas tenho de aceitar. Amanhã estou no pavilhão nº3 do Estádio Universidade de Coimbra a partir das 10 horas da manhã para fazer o que eu mais gosto e o que eu sei fazer melhor: JUDO!!!!!


Tiago Alves - Sábado, 26 Março 2010 22:20


(Publicado por: Horacio Alves)

terça-feira, 1 de março de 2011

Carta a LANCE ARMSTRONG- 2ª Parte

Comecei a ler o teu livro quando completei 18 anos, em 14 de Janeiro, estava em véspera de uma competição importante, quem me ofereceu foi um dos dirigentes do meu clube e ele disse-me: “Ofereço-te este livro, para que consigas perceber que as grandes vitórias não são só as do desporto, também são as da vida e o Lance Armstrong é um exemplo disso, ele não foi só um campeão no ciclismo, também foi um campeão na vida. É um exemplo que deves seguir, espero que este livro te inspire.”

E inspirou-me… Confesso que antes de ler o teu livro não fazia a mínima ideia de quem tu eras, sabia que tinhas ganho sete vezes o Tour França e que eras um dos melhores ciclistas do mundo, mas desconhecia que tinhas sofrido de cancro e isso chocou-me um pouco. Fiquei logo emocionado com as primeiras páginas do livro. Li o livro sem parar, nos intervalos da escola, à noite, antes dos treinos, antes das provas.
Ganhei a competição a seguir ao meu aniversário e jurei a mim mesmo que iria fazer tudo para ser um campeão, não só no judo, queria mostrar às pessoas que consigo mais, sempre mais.
Como disse estive a preparar-me para que este ano 2010 me corresse da melhor maneira. E começou bem, ganhei o Open de Lisboa, fiquei em 2º no Campeonato Zonal. Mas o objectivo, era sem dúvida conquistar a minha 3ª vitória no Campeonato Nacional.

Trabalhei tanto e todas as pessoas (pais, treinadores, namorada, amigos) achavam que eu iria ganhar. Treinei a minha técnica, a minha resistência física, a minha velocidade, a minha força. Mas infelizmente não correu como eu esperava. Perdi por um castigo na meia-final a um gajo que eu já tinha ganho. Fiquei em terceiro e foi das piores medalhas que já tive. Eu ganho a todos os que estavam no meu pódio, até mesmo ao campeão nacional que ganhou ao meu adversário da meia-final. Fiquei desolado, queria ganhar para poder enviar-te uma foto com a medalha de ouro ao peito e dedica-la a ti, mas, esta medalha, não vale a pena dedica-la pois não me sabe a nada.

O que foi melhor disto tudo, foi o facto que ter conseguido entrar na Selecção Nacional de Juniores.
Agora estou a preparar-me para a Taça da Europa em Portugal onde estão convocados os três primeiros do Campeonato Nacional. O meu objectivo será obter uma medalha e ficar à frente dos meus adversários para que seja eu a ir ao campeonato da Europa e do Mundo de Juniores.
Confesso que sou um pouco fraco a nível de resistência. Costumo ir nadar e correr, mas lembrei-me que vivo numa zona montanhosa, por isso nada melhor do que comprar uma bicicleta para passear pelas montanhas e desde que li o teu livro, que me interesso muito pelo ciclismo.

Comprei uma Scott Scale 50, coisa simples para quem está a começar a modalidade. Participei numa prova de bicicleta de montanha e fiquei fascinado, desde então que não paro de andar de bicicleta. Divirto-me e é uma excelente forma para me preparar fisicamente para o judo. Quando subi pela primeira vez as montanhas perto da minha casa, senti-me bem, senti-me livre e ninguém acreditava que conseguia subi-las devido à minha falta de prática, mas fui e consegui e disse a todos os que não acreditavam “Nunca me digam que não consigo”. Quando estive no topo da montanha, lembrei-me de ti, lembrei-me do quanto deves ter sofrido para conseguires ganhar o teu primeiro Tour de France após teres vencido o cancro. És sem dúvida único e tens todo o valor do mundo.
Desde que comecei a ler o teu livro que os meus colegas de equipa gozam comigo, dizem que tu és um dopado. Isso irritava-me sempre, eu dizia que não o eras e mesmo que fosses, era preciso muita coragem para fazer o que fizeste depois do que sofreste com o cancro. Eles ficaram intimidados e não gozaram mais.
Como disse não sou um fã fanático , mas confesso que me inspiraste muito estes últimos meses e continuas a inspirar-me, tenho uma visão diferente na minha vida como atleta, estudante e como pessoa. Aprendi a usar o que está contra mim a meu favor e independentemente de tudo, nunca desistir, pois se continuarmos e atingirmos os nossos objectivos a vida corre-nos melhor e somos mais felizes. Um dia gostava de estar frente a frente contigo e dar-te um abraço de solidariedade, de respeito e de amigo. Quem sabe um dia poderei ensinar-te uns golpes de judo e andar ao teu lado de bicicleta.
Para além de ir ao Jogos Olímpicos, também gostava de um dia organizar uma fundação com o objectivo de espalhar a pratica desportiva nas pessoas menos capazes, como deficientes motores, visuais. Gostava que no meu clube pudesse haver uma classe aberta a pessoas deficientes. Talvez , se conseguir ser um atleta de elite consiga ter apoios para organizar esta fundação, mas para isso também tenho de trabalhar para que consiga ser reconhecido.
Bem não tenho neste momento mais nada de especial a escrever. Espero que na próxima carta te possa mandar uma foto minha com a medalha da Taça da Europa em Portugal ao peito. Nunca se sabe, mas está prometido.
Sei que deves receber inúmeras cartas de fãs e que não deves ter tempo para responder a nada. Não estou a pedir que me escrevas uma carta, apenas gostava que me enviasses algo que me possa confirmar que leste a minha carta. Qualquer coisa. Espero não estar a ser chato. Sinto que iria ser importante para mim, para a minha auto-estima e que certamente iria ser mais uma fonte de estímulo e de inspiração. Vou continuar a acompanhar-te e a acompanhar a tua fundação.
Um grande abraço deste teu “novo” amigo =)
Tiago Alves
7 Março 2010

Dear Tiago,
Thank you so much for your e-mail and your interest in Lance Armstrong.
Feel free to send your letter to:
Capital Sports and Entertainment
Attn: Lance Armstrong
Unfortunately, since Lance receives so many similar letters, we will not be able to confirm correspondence from him personally. Again, I sincerely apologize and thank you for your continued support of Lance Armstrong.
LIVESTRONG,
Mary Grace Mooney
( Publicado por Horacio Alves)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Carta a LANCE ARMSTRONG- 1ª Parte

Caro Lance,
Chamo-me Tiago Alves, tenho 18 anos de idade e sou de Coimbra, Portugal.
Sou judoca de alta competição. Pratico judo desde os 4 anos de idade e desde então que nunca mais parei. E só vou parar quando não me mexer.
Tive a oportunidade de receber o teu livro, no dia em que completei os meus 18 anos, e fiquei impressionado com tua história. Mudei muito a minha maneira de ser e de ver as coisas. Posso dizer que agora pratico desporto não pela obrigação de treinar e obter bons resultados, mas sim por prazer, diversão e gosto de ganhar. Confesso que já estou a ler o livro pela 2ª vez =D
Vi-me de certa forma necessitado de te escrever. Sei que recebes inúmeras cartas de fans fanáticos por ti. Bem, eu não sou bem um fã fanático, mas ao ler a tua história percebi que de facto existe algo de especial dentro de ti e isso inspirou-me bastante. Hoje preparo cada competição com dois objectivos: ganhar e divertir-me.
Gostava de te contar um pouco da minha história pessoal. Espero não ser maçudo.
Nasci no dia 14 de Janeiro de 1992, no Hospital Santa Maria em Lisboa. O meu pai chama-se Horácio Alves e a minha mãe Margarida Silva Alves, eles tiveram-me com 30 anos de idade, cada um. Tenho um irmão dez anos mais velho, filho do primeiro casamento do meu pai, chama-se Rui Alves. Damo-nos todos super bem, eu amo-os a todos e sou bastante amado por eles, não me quero gabar, mas sei que sou o orgulho deles. O meu pai é o meu ídolo, está sempre presente nas minhas competições e apoia-me nos bons e maus momentos. É o meu melhor amigo.

A minha mãe é aquela senhora que me protege, que me defende, mesmo quando não tenho razão, é ela que se preocupa sempre com o meu bem estar e faz de tudo para me agradar. Sou, é certo, um rapaz mimado.
Nasci com uma deficiência na boca. Tive uma fenda no lábio e no palato, e à medida que fui crescendo, o meu maxilar inferior estava a ir para a frente e tinha o nariz ligeiramente torto. Fiz ao longo da minha vida 6 operações plásticas e estive cerca de 9 anos com aparelho nos dentes. Terminei em Dezembro de 2009 com o meu processo. Graças a este pequeno problema, eu fui (e ainda sou um pouco) durante a minha infância e adolescência um rapaz muito tímido e fechado em relação aos outros. Nunca fui de fazer grandes amigos e sempre fui muito selectivo nas pessoas que escolhia para fazer amizades. Normalmente tinha sempre dois ou três amigos com que eu me desse mais. Claro que raparigas comigo era um pesadelo, eu ficava sempre com a ideia de que elas me achavam feio e por isso nunca me chegava à frente e nunca sabia o que dizer. Era um mariquinhas nesse aspecto. Mas neste momento, penso que estou a melhor em relação a isso. Já arranjei namorada e gosto muito dela, chama-se Andreia, tem a minha idade e também faz judo.
Andei num colégio privado em Lisboa e desde muito cedo que os meus pais queriam que eu praticasse um desporto, para conviver com mais pessoas e para ter uma vida mais saudável. No Colégio havia natação, basquete ball , volleiball, judo, ginástica e ballet. Natação não podia devido à minha pequena deficiência, que ao inalar a água com cloro, ficava com alergias e porque tambem me constipava com muita facilidade. Basquete Basquete e Vollei era para alunos mais velhos. Ginástica e Ballet só tinha raparigas. Só sobrava o Judo e foi aí que comecei.
O meu primeiro treinador chamava-se António Matias, era o seleccionador nacional feminino, criou super atletas como Telma Monteiro, tricampeã da Europa e duas vezes 2º lugar nos Mundiais e duas vezes atleta olímpica.
Ele sempre disse aos meus pais que eu tinha jeito para o judo, mas eu queria competir e então, com 8 anos de idade, participei na minha primeira competição e ganhei. Fiquei contente porque iria receber uma medalha, mas para meu espanto, as medalhas da competição já tinham acabado. Fiquei tão triste e cheguei a chorar, tudo o que eu mais queria era a minha primeira medalha. Foi então que o meu treinador, que era organizador da competição, foi buscar à arrecadação uma caixa com restos de medalhas de outras provas e deu-me uma. Fiquei feliz e encantado. Lembro-me de ter dormido com a medalha.
Ao vencer quatro competições consecutivas em criança, fui-me imaginando nos Jogos Olímpicos e desde então, que esse sempre foi o meu sonho…
Sonho com os Jogos todos os dias, gostava de ter a sensação de desfilar na Cerimonia de Abertura, competir num palco cheio de adeptos, não só do judo mas do desporto e do espírito olímpico. Gostava de ter essas e muitas outras sensações. Mas claro que o grande sonho, o meu maior sonho, era ter uma medalha olímpica, de preferência a de ouro. Desde então que trabalho e compito com os Olímpicos em mente.
Mudei-me para Coimbra com 11 anos e continuei a praticar judo num clube chamado Associação Académica de Coimbra (AAC-JUDO). Foi ai que melhorei as minhas qualidades técnicas e tácticas. Era sempre exigente comigo mesmo. Quando acabavam os treinos da classe de iniciados (sub12 e sub15), ia logo a seguir fazer o treino de competição com os seniores, mas contra a vontade do meu treinador de iniciados. Os meus treinadores ficavam espantados ao ver-me treinar, com 14 anos treinava mais que qualquer senior. medalhava sempre em qualquer prova que entrasse. Fui duas vezes campeão nacional (sub15 e sub17) e este ano alcancei a medalha de bronze nos juniores. Sinceramente não estou muito satisfeito com este resultado, mas eu já te explico porquê.
Em 2008 estive na selecção nacional de sub17 e participei no circuito europeu, onde em quatro provas internacionais, alcancei duas medalhas de bronze. Mas infelizmente não consegui participar no Campeonato da Europa de sub17 pois o meu ex-rival da minha categoria conseguiu atingir os resultados mínimos e eram melhores que os meus. Em 2009 não consegui classificar-me no Campeonato Nacional de Juniores, por isso não fiz parte da selecção, que só escolhia os três primeiros classificados do pódio nacional. Mas continuei a trabalhar, participei em provas de seniores (mesmo sendo júnior de 1º ano) e medalhei sempre, estive em 3º no ranking nacional de Seniores, era o melhor júnior no ranking de seniores.
Fiz parte da equipa de seniores da AAC-JUDO, era o elemento mais novo da equipa e fiquei em 3º no Campeonato Nacional de Equipas, participei no Campeonato Europeu de Clubes onde só eu e um outro colega meu conseguimos vitória.
Não parei e desde 2009 que trabalho arduamente para que em 2010 tenha uma época com bons resultados e que consiga entrar na selecção de juniores e fazer o circuito europeu.(Continua...)

Tiago Alves 07 Março 2010

( Publicado por Horacio Alves )





sábado, 1 de janeiro de 2011

CAMPEONATO NACIONAL DE JUNIORES 2010




Dia 21/02/2010 Domingo

Eram sete da manhã. Finalmente chegou o dia!
Mal acordei fui ter ao quarto dos meus pais e disse-lhes “Chegou a hora da GUERRA”. Fui tomar banho, vestir o meu fato de treino da AAC e seguimos em direcção ao pavilhão no Estádio Universitário de Lisboa . Queria pesar-me o mais rápido possível para poder tomar o meu pequeno almoço.
65,7 kg era o meu peso. Mais uma vez, sem grande sacrifício, consegui estar no peso. Apenas uma semana sem grandes abusos alimentares e estou fino.
Tomei o pequeno-almoço com os meus pais num snack-bar junto ao pavilhão. Quando acabei o meu pai voltou-se de novo para mim e disse:

“Hoje é o teu dia, mostra o que vales! E não te esqueças, aconteça o que acontecer, eu amo-te muito”

Fui ter com os meus colegas de equipa e fomos todos preparar-nos para aquecer. O nosso treinador João Neto tratou de nos orientar enquanto o Jocá foi buscar as folhas de prova. Tinha-me calhado para o primeiro combate um atleta de Portimão, achei que poderia ser um combate fácil mas, nunca o subestimei.
Após o aquecimento, fui para o meu habitual momento de concentração. É nestes momentos na prova que eu aproveito para rever todo o meu percurso até ao momento. Pensei em todos, nos meus pais, no meu irmão, na minha namorada (que também iria competir), na minha família, nos meus colegas de equipa e amigos e nas vezes que não consegui medalhar em nacionais anteriores. Eu já sabia qual era o gosto de ser campeão nacional por duas vezes. Queria senti-lo hoje outra vez … “Hoje é uma prova importante. Tens de provar a ti mesmo, que consegues provar a todos que és um campeão! Ganhes ou percas, não te manifestes. E não te esqueças de te divertir” disse eu a mim mesmo. Fechei os olhos, respirei fundo e segui em frente…
Como tinha previsto os dois primeiros combates foram simples. Ganhei o primeiro por ippon (vantagem máxima) e o segundo por wazari.
Nos quartos de final iria encontrar o Pedro Guarinho da Universidade Lusófona. Não iria ser um combate fácil, mas eu pensei que conseguiria ganhar. Durante o combate todo, estive sempre, sempre a atacar e ele pouco ou nada fazia. O único problema, é que ele não caía de jeito nenhum e isso começava a enervar-me. Após tantos ataques, comecei a fazer falsos ataques, a que os árbitros me castigaram. Ele apenas teve de gerir o combate até ao fim. Não queria, não podia perder este combate “Eu sou mais forte que este gajo” pensei eu. O João Neto gritava a protestar contra os árbitros pois estes não castigavam o meu adversário por ele não atacar. Insisti em atacar e ele nada. Pura e simplesmente não caía por mais que lhe batesse nas pernas, por mais que abanasse, ele não caia…

Acabou o tempo…
Perdi…… perdi por castigos, castigaram-me por ter arriscado em atacar, por falsos ataques e ele não, praticamente não atacou, não o castigaram por falta de combatividade.
“Oh não! Lá estás tu outra vez Tiago” pensei eu. Pensei nas minhas anteriores derrotas em Nacionais. Lembrei-me do sabor amargo de não levar uma medalha no ano passado. Fui-me isolar de todos para que ninguém me visse e comecei a chorar.

“Porquê? Eu treinei tanto… eu sou mais forte que todos eles… porque não consigo ganhar? O que se passa comigo?”
Iria ser repescado. Tinha uma oportunidade para conseguir medalhar. Mas sinceramente, esta medalha não me iria saber a nada… Eu sabia que era o mais forte na categoria de -66kg. A medalha de bronze apenas serviria para salvar a minha honra, para ser convocado pela selecção para as provas internacionais. Todos se esquecem dos terceiros lugares.
O João Neto disse-me que não tinha mal eu ter perdido o combate. “Fizeste um excelente combate, o gajo é mais fraco do que tu.”
O Jocá, também triste, disse-me que não deveria arriscar tanto.
Fui-me sentar num banco e o meu colega Gustavo veio ter comigo e disse-me:
“Puto, alegra-te! Todos viram que tu estavas superior. Saca a medalha de bronze e vais mostrar quem manda no Torneio Internacional de Portugal”.
O meu pai também veio ter comigo “Filho, tiveste tão perto. Agora esquece e saca a medalha de bronze. O Torneio Internacional de Portugal vai-te correr melhor… olha alegra-te agora, vai para o tapete e faz aquilo que melhor sabes. Dá a esta gente um espectáculo de judo e diverte-te.”
Eu disse-lhe para ele ligar ao meu irmão, eu queria que ele estivesse presente.
Faltavam dois combates para ir disputar a medalha de bronze, ganhei-os sem dificuldades.
Não estava de todo alegre. Por mais que me esforça-se era-me difícil sorrir. Não só pela minha prova mas também pela da minha namorada, que também tinha corrido mal. Não quis ir ter com ela “Ganhe ou perca na minha prova, não quero que venhas ter comigo enquanto estiveres a combater. Não quero que te distraias.” Mas eu no fundo queria abraçar-me a ela e dar-lhe um beijo. Mas tinha a minha missão para concluir.
Não iria conseguir o meu objectivo máximo, mas pelo menos o mínimo tinha de conseguir. O combate que se seguia era para a medalha de bronze contra Paulo Jesus do Judo Clube do Funchal. Já o conhecia e sempre lhe ganhara. Cheguei à área de competição olhei para os meus pais, para o meu irmão que tinha acabado de chegar, para minha namorada, para os meus colegas e quis fazer o que o meu pai me pediu, dar um espectáculo de judo. O João Neto e o Jocá viram-se para mim e disseram para fazer o meu judo. E foi o que fiz… Peguei no meu adversário e arrebatei a técnica mais bonita que sei fazer, uchi-mata.


Ippon, era medalha de bronze… levantei o braço para todos eles a agradecer o apoio. Quando sai da área abracei-me aos meus colegas e treinadores, fui-me isolar de novo e fui chorar, não de alegria, mas sim de raiva. Raiva de saber que o adversário com quem perdi ficou em 2º, raiva de saber que já ganhei ao atleta campeão nacional, raiva se saber que pelo menos naquele dia, eu era o mais forte.
Na cerimónia de medalhas não consegui sorrir, sentia-me frustrado e até mesmo envergonhado… sai do pódio e tirei logo a medalha do peito, coisa que não costumo fazer. Sempre que medalhava, sentia-me orgulhoso da medalha, mas naquele momento não senti orgulho nenhum…
Toda a gente estava com esperanças que eu conseguisse melhor, mas não consegui.
Enfim, já passou, este objectivo não foi 100% concluído mas também não foi mau, agora tracei um novo objectivo: Medalhar no Torneio Internacional de Portugal.



Vou continuar a trabalhar, trabalhar ainda mais afincadamente… Tenho ainda muito para dar.

Tiago Alves 21/02/2010
(Publicado por- Horacio Alves)