segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O que fica após a morte de um filho?

O que fica após a morte de um filho? O que resta, a cada novo dia, perante o vazio e a ausência?
ANA GRANJA

"SEM TI, INÊS" foi escrito após ter perdido a minha filha, com apenas 15 anos. Apesar da necessidade que senti de verbalizar a minha dor, continuo convicta que a dor da perda de um filho é uma dor que não se diz, não se comunica, pois só é inteligivel para aqueles que tenham tido esta experiência devastadora... Ser pai ou mãe não é condição suficiente para entender aquilo por que estamos a passar, só a cumplicidade de uma dor partilhada permite que sejamos compreendidos.

Acompanhei com muita comoção e consternação as notícias da morte do seu filho. Visitei o seu blog vezes sem conta, testemunhei as suas palavras de coragem, e senti uma revolta enorme pela injustiça e crueldade desta vida. Ninguém devia ter que enterrar um filho, é a inversão completa de uma lógica que agora já sabemos não existir.

A perda de um filho é um marco nas nossas vidas: há um antes e um depois. Nunca mais voltamos a ser as mesmas pessoas, as datas mais significativas são agora as mais difíceis de suportar, e ainda que os outros nos digam que o tempo cura tudo, estou convencida que esta dor não passa. Infelizmente, acho que nos resta aprender a viver com este sofrimento dilacerante, com esta saudade que sufoca, com esta ausência insuportável. Pela parte que me toca, tenho a certeza que não terei tempo de vida suficiente para fazer o luto da minha filha (ainda que viva 100 anos). Não me imagino sequer a deixar de sofrer pela falta que ela me faz... As palavras "superar" ou "ultrapassar" são até ofensivas para o meu coração de mãe em luto. Prefiro pensar em assimilar, integrar a sua ausência em mim, aconchegá-la na minha memória e no meu amor infinito, de onde nunca mais a deixarei sair...

O Tiago e a Inês são do mesmo ano, também a minha filha teria completado 24 anos este ano. Vou confessar-lhe uma coisa: ainda que não acredite em Deus ou qualquer força transcendente, quando soube da morte do seu filho não pude deixar de os imaginar juntos, algures, a travar conhecimento e a conversar sobre temas e interesses comuns... Quem me dera que tal fosse possível...

Deixo-lhe um abraço cúmplice, bem apertadinho (que envolva também a mãe e o irmão do Tiago) Eu sei bem o que estão a passar...
Se precisar de desabafar, eu estou sempre aqui...


Ana Granja

terça-feira, 3 de março de 2015

Porque um qualquer cromossoma resolveu pregar esta terrível partida!

O médico, falou, explicou todos os passos e etapas, procedimentos, consultas, especialidades, ortodôncia , terapia de fala, otorrino, enfim, tinha ao longo daquela meia hora falado sobre todas as nossas dúvidas, perguntas, medos, resultados passo a passo, datas, idades, tempo e evoluções. Não tínhamos  perguntas a fazer, de certa maneira haviam sido todas respondidas com aquelas explicações. Tinha-mos sim era muita tristeza, muita dor nos nossos corações. Porquê? Porque é que uma criança que ainda não nasceu já tem um futuro traçado para sofrer, porquê?
Porque um qualquer cromossoma resolveu pregar esta terrível partida!
Passados alguns dias a Guida voltou a marcar consulta com a obstetra.
-Olá Margarida, já sei que estiveram com o Dr. Costa Santos, espero que estejam mais elucidados, ele é um excelente médico e tem um carinho muito especial por crianças para além de se ter especializado nestes problemas. Agora vamos-nos preparar para uma gravidez de alto risco, não que haja algum problema mas o Dr. Costa Santos quer estar presente depois do Tiago nascer afim de se certificar se ele tem forma de se alimentar sozinho ou, se é necessário alguma intervenção após o nascimento.
Queria isto dizer que o Tiago poderia nascer com a fenda do lábio e sobretudo do palato maior que o suposto e, assim sendo não teria forma de sucção nem para o peito nem para a tetina o que forçaria a uma pequena cirurgia de urgência.
Passámos dois meses angustiantes procurando cada vez mais literatura sobre lábio leporino e ficámos a saber que na época já lhe davam um nome mais pomposo, mais cirúrgico para não ser tão rude, ou seja “fenda do lábio” e “ fenda do palato.
O Natal estava aí, muita agonia mas já muita coragem e vontade de arregaçar as mangas para enfrentar o que estava para chegar, uma vontade doida de agarrarmos o nosso filho e começarmos a luta juntos.

Comprávamos os fatinhos, as meias em miniatura os babygrows, os seus primeiros brinquedos, o bercinho, as toalhinhas de banho, os cremes e as colónias de bebé.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A nossa primeira visita a um Hospital

Na semana seguinte fomos a uma consulta á obstetra que estava a seguir a Guida. É uma médica com imensa experiência e, para além disso também já tinha seguido uma colega  que tinha tido gémeas, havia alguma amizade e muita confiança.
-Então Margarida, como está?
-Doutora, o meu menino vai nascer com lábio leporino!
-Oh não! Bem, não é muito grave, há vários artistas de cinema e pessoas célebres que também nasceram assim, é um problema estético e nós vamos arranjar os melhores médicos da especialidade, eu prometo.
Assim fez, ligou alguns dias mais tarde para nos dirigirmos ao Hospital de Santa Maria, pois já tinha falado com um colega cirurgião, Dr. Costa Santos, que era na sua opinião, um dos melhores especialistas para estes casos. Começava assim, a nossa primeira visita a um Hospital com o nosso Tiago, com apenas sete meses de gestação.
Alguns dias mais tarde fomos direitos ao Hospital de Santa Maria. Era manhã cedo, para este hospital tinha sempre que se chegar muito cedo pois as marcações eram sempre por ordem de chegada embora neste dia não fosse esse o nosso caso.
Entrámos, seguimos por aquela alameda da fachada central do Hospital, perguntámos onde era serviço, descemos, entrámos num pátio interior onde se localizava a cantina dos médicos e enfermeiros, por traz ficava os consultórios de medicina reconstrutiva infantil. Uma entrada com bancos corridos do lado direito, os balcões de atendimento do lado esquerdo e, ao fundo, uma sala de espera separada dos consultórios por duas portas grandes envidraçadas com molas laterais, tipo Texas.
-Dr. Este casal vem para falar com o senhor, vêm mandados de uma colega  obstetra.  Informava a funcionária da recepção.
-Bom dia, a Dra. Madalena falou-me de vocês e do vosso bebé, por favor venham comigo.
Entrámos de imediato no consultório, eram oito e meia da manhã, o médico nunca se atrasava, era sempre dos primeiros a chegar. Era um homem grande, forte com umas mãos enormes, muito boa figura aí pelos seus cinquenta anos. Convidou-nos a sentar e depois de devidamente instalados disse:

-Bom dia, vou informa-los de todo o processo que eventualmente nos espera… se quiserem ser seguidos aqui comigo. Vou tentar esclarece-los  de todos os cenários e procedimentos que de uma maneira geral se tem que ter com estas crianças, se no final tiverem dúvidas, ponham-nas, combinado.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

A ECOGRAFIA…


O Tiago foi uma criança muito desejada, a gravidez sempre muito bem acompanhada, tanto assim que aos sete meses de gestação fomos fazer aquela que seria a ultima ecografia e, para tal levámos uma cassete vídeo, daquelas enormes, para gravarmos as primeiras imagens de vida do nosso menino. Foram dos primeiros vídeos de ecografia que se começaram a gravar numas máquinas novas para os pais poderem levar para casa e não ser só aqueles papelinhos com imagens em forma de cone a preto e branco, escusado será referir que se tinha de pagar mais um tanto além da consulta.

-Estes são os pezinhos, aqui os braços, este é o coração a bater, e agora vamos lá ver a carinha deste rapagão. – Ia relatando a Dra. Joaquina. Uma médica especialista em ecografia, para onde a médica da Guida já nos tinha encaminhado nos exames anteriores.

Parou, insistiu no mesmo sítio, voltou a insistir e ao fim de uns longos minutos foi consultar alguns livros e por fim perguntou.

-Vocês têm alguém na família com lábio leporino?

-Lábio leporino, que é isso? – Perguntei eu com toda a minha ignorância sobre doenças. Eu nunca fui e não sou uma pessoa com interesse por doenças, medicamentos, médicos, especialidades ou seja lá o que for em relação a esses assuntos, tenho pena mas efetivamente só vou tendo algum conhecimento a propósito do que me tem vindo a acontecer durante a minha vida, ou a pessoas próximas.

Mas logo a Guida ficou super nervosa, preocupada e, começou a chorar. Ela sim, ela sabe quase tudo sobre doenças, medicamentos, médicos. Lê sobre esses assuntos, tem interesse e, gosta.

-Não doutora, por favor conte-me tudo, por favor não me esconda nada, o que é que a doutora viu, diga-me?

-O vosso filho vem com lábio leporino e uma pequena fenda no paláto.

O nosso teto estava a cair pela primeira vez. O sofrimento tinha começado, longe de imaginar-mos o que nos esperava.

-Não estejam assim, pois hoje em dia as cirurgias para estes casos já estão muito avançadas, estamos a falar apenas de uma pequena má formação estética, de resto ele é um rapagão saudável. – Dizia a médica muito atrapalhada mas com alguma vontade de nos confortar.

Saímos daquele consultório desfeitos, neste momento já me tinha sido explicado o que era o lábio leporino, que de certa maneira conferia com a fraca ideia que eu tinha. Chegámos a casa e, pensámos consultar outro médico para repetir a ecografia.

 A cassete, onde está a cassete? Tirámo-la do saco, colocámo-la no leitor, vimos o filme, revimos, voltámos a ver, uma vez mais e mais. Não havia dúvida, estava lá, era bem percetível a pequena fenda, o nosso menino tinha lábio leporino.

Durante o fim-de-semana viemos para a rua, queríamos encontrar alguém com essa má formação, já todos nós vimos algumas pessoas com o lábio cozido, como se fazia antigamente, eram apenas uns pontos e, depois, ficavam com o lábio ligeiramente arrepanhado, queríamos falar, queríamos perguntar, queríamos saber.

Fomos para supermercados, centros comerciais, vagueámos pelas ruas sem rumo sem destino, andámos, simplesmente andámos de cabeça no ar olhando para a direita, olhando para a esquerda á procura. Olhávamos para as pessoas, para toda a gente como loucos e, nada, não víamos nada, não encontrámos ninguém. Fomos para as livrarias á procura de livros, fotografias nos livros, médicos, enfim, horrível, só nos restava chorar e consolármo-nos um ao outro.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Era um miúdo com uma fé incrível

(Nestas alturas questionamos tudo, a vida, a educação, a política, os médicos, a religião…)


A religião sim! Eu toda a vida fui um homem de fé, não praticante beato, mas de muita fé. A minha educação foi sempre encaminhada para a religião católica. Enfim, Deus, Jesus, apóstolos, a virgem, santos e tudo o que envolve essa tal orientação. Íamos á missa quando nos apetecia ou sentíamos necessidade, e, em ocasiões importantes, como casamentos, onde se jura tudo numa enorme alegria, com vontade que o padre despache aquilo pois o pessoal quer mesmo é festa, e nada do que se jura, passando para a vida real, raramente é cumprido. Baptizados, onde depois poucos são os ensinamentos que se dão ás crianças.
Como assim?
Basta irmos a uma qualquer missa e ver quantas são as pessoas que conseguem acompanhar aquela ladainha, dita de tal modo, que chegamos a sair em dias maus, mais deprimidos e tristes do que entrámos. Grande parte só mexe os lábios para fingir que sabem toda aquela retórica, quase me atrevia a dizer que algumas nem o Pai Nosso completo sabem.
Isso também não é de estranhar pois vivemos num País onde 70% da população não sabe o Hino Nacional!
Voltando á religião… Por onde andaram esses Deuses que nem por um momento se esforçaram para salvar ou dar uma segunda oportunidade ao meu filho…
O Tiago só foi baptizado aos onze anos. Sempre achámos que deveria ser ele a seguir a religião que entendesse, muito embora a linha que traçámos para o orientar fosse a católica.
Era um miúdo com uma fé incrível. Quando foi operado pela primeira vez nos HUC, onde foi mandado internar pelo Prof. de gastrologia após um mês de exames, os últimos, endoscopia e colonoscopia, seriam nos HUC, que correram muito mal. Durante a colonoscopia a médica pensou ter perfurado os intestinos ao Tiago, tal foram os gritos com dores apesar da anestesia.
Tendo sobretudo a mãe insistido para que o Tiago parasse de treinar para fazer exames e saber-se de onde vinham aquelas dores e mau estar, foi só em Maio que pediu e se dispôs a ir a uma consulta a um especialista.
 Assim foi, a mãe com a máxima das urgências tratou de encontrar o melhor médico para seguir o nosso filho. Foi á consulta onde lhe foi pedido uma bateria sem fim de análises, exames, tudo.
Passados poucos dias fomos buscar o resultado de parte das análises que o Professor mandou fazer, com a nossa aflição dirigimo-nos ao consultório, na expectativa de que os resultados fossem vistos.
-O Professor não tem como vos receber, está com a agenda super cheia, hoje só irá sair daqui por volta da meia-noite. – Informou a recepcionista do consultório do médico.

Então, deixámos os exames para que o médico os pudesse analisar afim de sabermos mais alguma coisa, ou se eventualmente se poderia adiantar com algum tratamento.

sábado, 20 de julho de 2013

Para ti...


Para ti…
Filho vou tentado achar o rumo por aqui, reaprendendo ser, sem te ter. Não, não vou perder a esperança nem desistir, pois foi essa força que me deixas-te antes mesmo de partires…! “Nunca desistir nem baixar os braços” ás adversidades que nos vão surgindo nesta passagem por cá. Tenho tantas saudades de nós, que nem todo o amor que eu sinto por ti consigo exprimir…!
Mãe

sábado, 2 de março de 2013

Nestas alturas questionamos tudo...


Da avenida da Liberdade voltámos de imediato para o IPO. Aguardámos!
O Tiago já estava nos cuidados intensivos. Quisemos velo de imediato... O pessoal do IPO de Lisboa, e eu falo deste porque infelizmente é o único que conheço, é de um humanismo extraordinário, desde as auxiliares, enfermeiras, enfermeiros, médicos, pessoal da copa, da cozinha, enfim para não cometer qualquer tipo de injustiça, todos sem excepção, são pessoas com corações e com sentimentos pelos outros que eu pensei nunca vir a encontrar, mas eles estão lá todos, e, todos os dias.
Deixaram-nos entrar, um de cada vez, mas deixaram-nos entrar a todos.
Novamente aberto, por cima da cicatriz anterior, só que desta vez ainda maior. A cicatriz cozida com pontos largos, muito grossos, muito inchada, horrível. Porquê ?
-Mãe, pai, não me tiraram o bicho, o Dr. Nuno já falou comigo e disse-me que não conseguiu fazer nada… Disse, muito baixinho junto aos nossos ouvidos, muito cansado a arfar com dificuldade em respirar com tantos tubos, drenos, cateteres, sondas, sacos, apitos das máquinas e sob o efeito da anestesia e de uma dose absolutamente incalculável de morfina.
As nossas cabeças ficaram ocas, não sabíamos, ou não queríamos entender o que se tinha passado, não conseguíamos raciocinar, parecia que estávamos a flutuar. Então, e agora? Olhava-mos em volta, mas não via-mos ninguém, onde é que nós estávamos?
Pouco tempo depois falámos com o Dr. Nuno que, pausadamente tentou, escolhendo as palavras, informar-nos o que se tinha passado.
Quando abriu o Tiago em cirurgia, as metástases e o desenvolvimento do cancro era já de tal ordem que se lhe fizesse alguma coisa ele iria falecer na marquesa de cirurgia. Foi horrível. O médico chorou connosco, a dor era geral, todo o piso seis, olhava para nós com dó, pena e muita dor.
É muito difícil descrever o que estava a sentir, digo estava a sentir porque neste momento cada um de nós estava a sofrer e a sentir a dor por si próprio. E o Tiago, que estaria a sentir o meu querido menino?
Nestas alturas questionamos tudo, a vida, a educação, a política, os médicos, a religião…

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Não fez nada!

Quarta-feira, 7 Julho 2010
São 6,00 horas da manhã, está na hora de ir o mais rápido possível para o IPO de Lisboa. O Tiago vai ser operado pelo Dr.Nuno Abecassis.
Fomos a voar, chegámos, subimos ao sexto piso, meu querido filho, sedado, com os olhinhos brilhantes cheios de vontade de vencer, e ao mesmo tempo de sofrimento, lágrimas, tristeza mas muita, muita esperança. Abraços, beijos, muita dor. Ajudámos o Tiago a fazer a sua higiene, a vestir a bata azul debotada, com as iniciais do hospital já esbatidas de tanto uso e, as meias para a cirurgia. Oito horas, estava na hora de descer para o bloco de operações. Fomos até ao elevador.
-Mãeee, Paiii…- Gritou.
-Amo-vos muito.
Junto á porta do elevador, mais abraços, mais beijos e todos eles poucos, muito poucos comparados á vontade que tínhamos.
Saímos os quatro do IPO de Lisboa, eu a mãe, o  Rui e a Andreia.
Fomos até á Sé Catedral de Lisboa, rezar, acender velas, tantas quantas  a idade do Tiago, dezoito… Suplicar, implorar pelas melhoras do Tiago, implorar para que Ele se salvasse.
Saímos, fomos a um centro Budista, não havia nenhum conselheiro espiritual. Não nos deixaram aproximar do suposto altar, ou, mesmo junto das imagens, insistimos, nada, não nos atenderam, nem tão-pouco se interessaram pelo nosso motivo.
Saímos para irmos a um centro ÍNDU e, depois á Mesquita. Estávamos a subir a avenida da Liberdade, toca o telefone, 10,30 horas.
-Estou, Dnª. Margarida, fala Nuno Abecassis.
A cirurgia era para ter demorado cerca de oito horas e, o telefone tinha tocado bem antes.
-Não conseguimos fazer nada ao Tiago, desculpe, mas não pudemos fazer nada. – Comunicava o cirurgião.
Voltamos para o IPO pois queríamos ver o Tiago e, falar com o cirurgião.
Os apertos dos nossos peitos ficaram cada vez mais intensos, cada vez doía mais, uma dor que nos persegue até hoje, uma dor que ainda não consigo definir.
“Não fez nada! Não fez nada como? Porquê?” – Era o que rodava nas nossas cabeças olhando uns para os outros em silêncio, sem ninguém dizer uma palavra, cada um a ponto de explodir de qualquer maneira, mas nem isso estávamos a conseguir.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Tem que se poder fazer alguma coisa...


Voltámos para casa, durante o percurso não falámos nada, ou pelo menos não me lembro. Chegámos, abri o portão, parei o carro, estava um calor insuportável, entramos em casa e o Tiago muito devagar subiu para o seu quarto. E, então, chorou, gritou, gritou, num desespero total num sofrimento sem fim, o nosso teto tinha caído, o nosso filho estava a explodir. A Guida subiu, foi ter com ele, ela também lavada em lágrimas, sangrando, sangrando pelo coração de mãe, sangrando pelo seu filhinho amado, sangrando pela maior paixão da sua vida. Pediu á mãe, por favor que o deixa-se sozinho, queria estar sozinho. A mãe desceu, vagueávamos os dois pela casa com a cabeça entre as mãos, olhávamos para o nada, nada era tudo o que conseguíamos ver, nada, a nossa vida estava a ficar sem nada.
Ouvia-mos cá em baixo a conversa ao telefone com a Andreia, a sua namorada, muito envergonhado como se culpa tivesse, chorava… choravam os dois, os seus sonhos de meninos estavam a ser interrompidos, uma dor, um desgosto, uma tristeza. Estiveram horas ao telefone sem parar de chorar nem por um só momento, nós, igualmente. Impotentes, mas o que é que nós podemos fazer? Tem que se poder fazer alguma coisa, não é possível…
Telefonámos ao Rui, o irmão, tem agora vinte e oito anos, quando o Tiago nasceu o Rui tinha dez anos, viveu a gravidez do irmão na maior das felicidades. Foi o Rui que escolheu o nome completo do irmão. O Rui sempre foi um ídolo para o Tiago. Era um amor bom de ver, muito bom.
Ficou desfeito com o telefonema, não conseguiu mais descansar, não conseguiu mais viver a vida dele, passou a viver praticamente só para o irmão.
Telefonámos para o resto dos familiares, amigos e, sobretudo para os amigos e colegas da AAC-Judo. Os colegas da secção de Judo foram incansáveis. Ficaram todos, sem excepção de rastos, o Tiago sempre foi muito querido na secção, não só como atleta mas sobretudo como pessoa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O pior dia da minha vida


Segunda-feira, 21 Junho 2010
Uma vez mais lá estava-mos nós no HUC, desta vez para irmos com o Tiago tirar os agrafos, fazer os pensos tanto da cicatriz como dos drenes. Já na sala de pensos, a enfermeira muito simpática convidou-nos a sair para poder estar mais á vontade com o Tiago. Alguns instantes depois chegou a Dra. Dulce que nos apresentou a enfermeira. Terminado o penso, dirigimo-nos para uma pequena salinha portas meias com a enfermaria, pediu para nos acomodarmos, o Tiago sentou-se, cansado, fraquinho e muito apreensivo em frente á secretária, a mãe Guida sentou-se ao lado e eu fiquei em pé a traz dos dois. Eu e a mãe, nervosos, com os corações a sangrar, o estômago colado á boca que chegava a dar vómitos e, o pior, esse ainda estava para chegar. A Dra. Dulce levantou os olhos do processo, olhou nos olhos do nosso filho e….
-Tiago, tu estás muito doente, o que tu tens é muito grave – uma longa pausa, levanta a cabeça de novo – Tiago, tu tens um cancro no estômago.
Meu querido filho, tinha acabado de morrer… Uma tristeza sem fim, chorava, fraquinho que até a força para gritar lhe faltou, chorou quase em silêncio. Nós, nós chorávamos compulsivamente, a médica deixava que as lágrimas se transformassem em pequenas gotas no canto dos olhos vermelhos pois eticamente não era suposto o médico chorar em frente ao paciente. E o meu filho! O que estaria a sentir o meu filho? A que velocidade estavam a passar os pesadelos na sua cabecinha? Como eu queria estar no lugar dele… Nunca se devia dar uma notícia destas a um filho e, um pai a assistir a todo este sofrimento, impotente, sem saber o que fazer, ou simplesmente, sem poder fazer nada. Não te quero ver sofrer, mas como vou trocar o lugar contigo, como?
O que o meu filho estava a pensar veio, mais tarde, a dar-nos uma pequeníssima ideia no seu blog.
O dia 21 de Junho de 2010 foi para mim o pior dia da minha vida. Foi o dia em que me tiraram a minha pessoa. A sério, neste momento eu sou uma pessoa totalmente diferente.”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Não chores Pai...


Domingo, 20 de Junho 2010
Após uma noite agitada, com sonhos penosos, insónias, dores, pensamentos do mais terrível que um miúdo de 18 anos pode ter, não almoçou. Pouco comeu o dia todo, não tinha apetite, só tristeza, muita tristeza. Ligou a sua guitarra, tocou um pouco cá em baixo, na sala pois não tinha força suficiente para subir e descer as escadas que davam para o seu quarto. O animo era pouco, estava contente mas com pouca vontade. Agarrámos nos os três no sofá da sala, não nos conseguíamos afastar do nosso tão amado filho, queria-mos pegar-lhe ao colo, protege-lo, ampará-lo, salvá-lo de todos os males como sempre lhe prometíamos quando era pequenino.
-Não chores Pai, ficas muito feio quando choras. - Dizia…
O nosso coração não estava a aguentar, não conseguíamos estar a assistir a tudo o que se estava a passar, não lhe podíamos dizer o que já sabíamos, dor, uma dor que desfazia tudo por dentro, as nossas cabeças rebentavam, não nos era possível raciocinar, o pesadelo já mais iria terminar. Nunca mais acordava, acorda! Acorda que tudo isto é um mau sonho, é um pesadelo. Não, não era um mau sonho, estava mesmo a acontecer, o nosso filho Tiago, estava muito, muito doente.
Não, não quero, não pode ser. Porquê, porquê, não, não, o nosso filho não. Que fez esta criança de mal? Nada, só o bem. Não, não, não...
-Mãe, Mãeee.- Gritou ao inicio da noite com vómitos. Corremos para junto dele que já á algum tempo dormia no quarto mesmo ao lado do nosso.
 Em Janeiro, mais ao menos, começou a dormir no quarto ao nosso lado, o seu quarto era no primeiro piso, onde o Tiago tinha o seu mundo.
-Vens dormir cá para baixo? – Perguntávamos.
-Sim, apetece-me ficar aqui mais próximo de vocês. – Dizia.
A mãe sempre achou estranho, várias vezes comentou e repetidamente me dizia.
-O Tiago não anda bem, passa-se qualquer coisa.
Quando chegámos junto do Tiago, algo que demorou segundos, estava de joelhos na cama com a cabeça para baixo a vomitar um liquido vermelho.
-Oh não, sangue não mãe, sangue não, por favor sangue não. – Dizia chorando imenso.
-Meu filho, por favor acalma-te, por favor, não é sangue, é o iogurte com a polpa de morango que tem essa cor avermelhada, acalma-te meu amor. – Tentávamos nós acalmá-lo. Era sangue? Não sei, é possível. Meu querido filho. Acalmámo-lo, estava transpirado, pálido muito cansado, exausto e, muito, muito assustado e com medo
Dormiu o resto da noite com a mãe, mal, muito mal, aliás como todas as noites a partir daí.
Levava as noites desde então a dizer á mãe, baixinho, enquanto dormiam.
-Mãe, amo-te muito, amo-te muito.
-Também te amo muito meu querido, agora tenta descansar meu amor.
No dia seguinte iríamos ao HUC, ter com a Dra. Dulce, para o informar da sua doença.

sábado, 1 de setembro de 2012

A viola eléctrica


A Fernanda e o Vivaldo, vieram a Coimbra passar o fim de semana connosco, para nos apoiarem e fazerem alguma companhia. Desde que o Tiago adoeceu, estiveram quase todas as semanas presentes, eles moram em Setúbal, mas a distancia nunca os impediu.
A Fernanda é irmã da minha mãe, o Vivaldo é o marido. Infelizmente nunca tiveram filhos, então, são os padrinhos de todos os sobrinhos, inclusive, eu.
De manhã o Tiago, fraco e cansado porque as noites são muito penosas e difíceis, não se estava a entender com os sacos para o estoma que tínhamos comprado quando ele saiu do HUC.  
-Filho, temos de ir a Vale Formoso trocar os sacos para o estoma, nós não nos entendemos com esses e, depois vamos comprar a tua viola eléctrica… queres? -Dizia eu.
A viola já antes estava prometida, só que a ideia era comprá-la depois dos exames do 12º ano.
-Sim pai, vamos, eu tenho dinheiro junto para a viola. -Dizia o Tiago contente, mas com uma fala pausada, cansada e num tom baixinho.
-Não meu amor, o pai e a mãe oferecem-te a viola, guarda o teu dinheiro.
Nós tinha-mos que oferecer-lhe a viola, nem que fosse o último presente material, e foi.
Saímos os dois direitos a Coimbra, curva contra curva, pediu-me que fosse devagar pois sentia dores e estava a enjoar. Assim fiz, fomos falando de coisas fúteis, banais, pois nem eu nem ele tinha-mos vontade de conversar sobre a cirurgia. Fazia-mos promessas que íamos estar sempre juntos, o quanto nos amava-mos e como íamos superar mais este obstáculo.
Quando entrámos na loja de música, a senhora que nos atendeu ficou, diria quase em estado de choque, pois conhecia muito bem o Tiago pelas horas que ele passava no estabelecimento perguntando preços, modelos, amplificadores, pedais e todos os aparelhos e utensílios que ele pensava comprar. Ele estava muito magro, muito pálido, curvado com dores,  com o incomodo da sonda gástrica, do saco do estoma, dos agrafos e os adesivos que lhe esticavam a pele.
Sabia exactamente o que queria, passou ao gabinete do fundo onde o ensinaram a ligar a guitarra ao amplificador, afinaram os aparelhos e recebeu mais umas quantas instruções. A senhora que tinha ficado comigo a fazer a factura estava ansiosa por saber o que se estava a passar com o Tiago. Conhecia-o, sempre o achou muito educado e um miúdo muito querido, o que se estava a passar? Insistia. Não tinha vontade nenhuma de conversar com pessoas desconhecidas, limitei-me a dizer que tinha feito uma operação e estava muito doente.
Carreguei o material para o carro que estava mesmo á porta, amparei o meu filho e, voltámos para casa. Quando chegou estava feliz, talvez só contente mas de tal modo exausto que não quis mostrar logo a guitarra á mãe, preferiu ir deitar-se e descansar um pouco.   

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

OS MEUS ÓCULOS DE SOL...


Dia 18 de Junho, sexta-feira um calor de 35º de temperatura neste verão infinitamente quente, dia da gravação da música. Pedimos que não estivesse muito tempo de pé e que bebesse água.
Subiu devagar as escadas com a sua viola, cá em baixo eu e a mãe, lavados em lágrimas, pois no dia anterior tinham-nos informado da doença do Tiago e que a cura ou tratamento era praticamente impossível.
 Levámos o tempo de espera a chorar agarrados um ao outro com um aperto sem fim no coração, com um aperto no peito que ardia, rasgava, sem forma de sabermos o que nos estava a acontecer.
Aguardámos uma, duas, três horas. Cada minuto era uma eternidade, três horas um inferno. Por fim desceu as escadas acompanhado pelo Gil e o resto dos amigos. Muito cansado, chega junto de nós.
-“Oh, esqueci-me dos meus óculos de sol”….
-Deixa, o pai vai buscá-los.
-“Não, eu vou, espera só mais um pouco por favor.
Voltámos para casa, estava cansado, muito cansado. Deitou-se no sofá, triste, muito triste, não vertia uma lágrima mas o seu olhar sem brilho e o seu coração com uma tristeza sem fim, só olhava para o chão.
-Filho, não olhes para o chão, assim não meu Amor. - Dizia-mos nós repetidamente. Mas no seu interior, o sofrimento não o deixava reagir de outra maneira, muita tristeza, muita infelicidade.

domingo, 1 de julho de 2012

NAAAÃO!



-Não, não é verdade, vocês não podem estar a falar verdade, estão a dizer-me que o meu filho vai morrer, não, o meu filho não pode morrer, têm que fazer alguma coisa, tem que ser feita alguma coisa, NAAAÃO! – Gritava eu histérico, a chorar, a berrar naquele gabinete. Neste momento já todos chorava-mos naquela pequena sala, inclusive o Professor; dizia que poderia imaginar a nossa dor pois tinha um neto com a idade do Tiago e, nem queria pensar se tal coisa lhe acontecesse.
 Não, ninguém consegue imaginar esta dor, só quem por ela está a passar. Ninguém consegue imaginar o que é que uma mãe e um pai sentem, ou não, porque não se consegue explicar a intensidade da dor, o mau estar, os suores, os arrepios, a vontade de vomitar quando alguém vindo do nada nos diz…o vosso filho vai morrer. Só alguns sabem ao que me refiro, á dor, ao sentimento que ainda hoje não consigo explicar. É de tal forma forte e violento que não encontro ninguém que consiga descrever ferida que sangra constantemente e o sangue não se vê!
A Guida, minha querida e amada esposa chorando tentava acalmar-me:
-Pára, por favor pára, expliquem-me tudo por favor, não pode ser, digam-me o que se passou, digam-me o que podemos fazer, digam-me que há alguma esperança.
-GUIDA, ELES ESTÃO A DIZER-NOS QUE O NOSSO FILHO, O NOSSO TIAGO VAI MORRER, MORRER NÃO ESTÁS A PERCEBER, O NOSSO FILHO VAI MORRER. – Gritava eu em desespero como se os meus gritos alterassem alguma coisa. Eu só queria que me dissessem que morrer não, o meu Tiago não ia morrer. Mas isso ninguém nos disse, bem pelo contrário. Quando a Guida perguntou quais eram as possibilidades, a Dra. Dulce respondeu-lhe que ia estudar o problema mais a fundo e que depois dizia alguma coisa. Logo de imediato o Professor entreviu.
-Atenção, é muito importante ter em conta a qualidade de vida com que estes pacientes ficam, sabemos que a proporção de sobrevivência é de um (1%) contra noventa e nove (99%) por cento.
Saímos, cá fora no corredor a Dra. Dulce dirigiu-se a nós, que estava-mos de rastos, como se um comboio nos tivesse passado por cima e, disse-nos:
-Eu vou tentar tudo por tudo, vocês estão dispostos a ir até onde? Pode ser que tenhamos que ir para o estrangeiro, o que me dizem?
Os dois ao mesmo tempo, atropelando o diálogo um do outro, quisemos ali, naquele momento deixar bem claro que tudo, para todo o lado, fosse para onde fosse, estava-mos dispostos a ir até ao fim do mundo.
Pediu-nos que fosse-mos para casa, ela depois telefonava, e além disso o Tiago na segunda-feira tinha que vir fazer o penso e se nós  quisesse-mos ela falava com Ele. Assim fizemos, como poderíamos nós dizer á pessoa que mais amamos, na flor da idade e com tamanha vontade de viver que tem um cancro e vai morrer! Como?   

sexta-feira, 1 de junho de 2012

17 JUNHO 2010


No dia anterior, dia 17 de Junho, quando andávamos a fazer algumas compras para casa; pois com estes dias todos de Hospital, comíamos nas cantinas e nos bares, por vezes algumas coisas daquelas máquinas onde enfiamos as moedas e depois temos que dar dois murros para podermos ter direito ao que escolhemos. Não tínhamos nada em casa e o frigorifico estava vazio. 
Enquanto percorríamos os corredores do supermercado para a frente e para trás, pois as nossas cabeças não conseguiam lembrar-se do que realmente nos fazia falta, eis que o telefone da Guida toca. Uma aflição para o encontrar como sempre acontece nas malas das senhoras, pensávamos que era o Tiago, pois tinha ficado em casa com uma funcionária que lá ia todas as semanas. Não, não era, o telefonema era do Hospital, era a Dra. Dulce a informar que os resultados das biopsias já tinham chegado e, queria falar connosco nesse dia á tarde.
Voltámos para casa, nervosos com os corações apertados mas sempre pensando que tratamentos iriam administrar ao nosso filho e, que doença poderia ser aquela afinal. Depois de almoço, tivemos que lhe dizer que íamos á contabilidade, não nos demorávamos era só um bocadinho, para ele ficar a descansar que a senhora ficava com ele e, se fosse necessário telefonavam-nos que nós vínhamos logo.
Entramos no hospital, subimos ao quinto piso, serviço de gastro. Dirigimo-nos ao balcão e dissemos que éramos os pais do Tiago e tínhamos uma reunião com a Dra. Dulce. Entretanto passa por nós o Dr. Bruno, que tinha assistido o Tiago quando o Professor o mandou internar.
-Boa tarde, o Professor e a Dra. Dulce estão ao fundo na sala de reuniões, eu também lá vou estar, nós já vos chamamos.
Agarrámo-nos um ao outro, tremia-mos, não sabíamos o que pensar, questionávamo-nos constantemente, por fim, chamaram-nos para a pequena sala ao fundo do corredor. Entrámos, pediram que nos sentasse-mos e, lá estavam o Professor, sentado em frente a uma velha secretária coberta de livros, a Dra. Dulce no canto esquerdo ao lado da janela encostada a um armário arquivador e o Dr. Bruno de pé frente ao Professor entre nós e a Dra. Dulce. Olharam várias vezes uns para os outros tentando decidir entre eles quem falaria em primeiro. A Dra. Dulce tentou fazer uma breve introdução dizendo que o resultado das biopsias e dos exames eram complicados e que o problema era grave. As nossas cabeças iam ficando cada vez mais confusas, o nosso estado de nervos estava completamente fora de controlo, até que num repente o Professor virou-se para nós e disse:
-O Tiago está muito doente, tem uma doença muito rara em crianças da idade dele, o Tiago está com um cancro no estômago com metástases espalhadas pelo peritoneu, infelizmente é dos de pior estripe e o facto de ele ser muito jovem só o prejudica pois as células malignas desenvolvem-se a uma velocidade incontrolável. Lamentamos muito.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Assim é que eu vou bem


Nos intervalos da Escola, quando tinha mais de uma hora, passava-os na livraria Bertrand. Às quartas-feiras num intervalo de três tempos ia fazer natação, sozinho, para o Pavilhão Multiusos de Coimbra, onde lhe cobravam dois euros para poder treinar, mesmo assim não se importava, em vez de andar a vaguear pelo choping como tantos outros preferia ir nadar. Às quintas-feiras, entre o intervalo da escola e o treino Federativo, participava num grupo de música para o qual foi convidado. Nunca andou em nenhuma escola de música, aprendeu sozinho, a praticar em casa e a estudar pelas cifras da internet. Um génio. Escreveu uma letra e música, (Assim é que eu vou bem …) que veio a gravar quinze dias depois da primeira operação no HUC.
"A distância de casa ao café
é maior do que consigo suportar
de carro é mais rápido e assim é que eu vou bem

O caixote do lixo está longe da minha mão
...É tão fácil para mim deitar o papel ao chão
desta forma é mais rápido e assim é que eu vou bem

E como gosto de estar no meu sofá
tanto prazer que me dá
e assim é que eu vou bem
não incomodo ninguém……
e se alguém me disser "faz o bem" eu direi
esquece e vem tu também
e assim ficamos bem

passo horas no banho a cantar
com agua quente para poder relaxar
desta forma é tão bom e assim é que eu vou bem..."
(Tiago Alves-2010)

 Foi gravar com dois drenos, um saco ligado ao intestino e os agrafos às dezenas de uma barriga aberta desde o externo até á zona púbica. Não disse nada aos colegas de música. Esperei á porta com a mãe, doidos de preocupação.
- “Pai, Mãe, hoje está marcada a gravação da minha música, a música que eu tenho trabalhado tanto para a ouvir gravada, por favor, eu tenho que ir.”
-Meu Amor estás muito fraquinho, são muitas horas, não te podes cansar tanto meu Filho. - Dizia a mãe,
-“Por favor mãe, por favor …”
-Vamos sim, o pai leva-te a viola; vamos devagar e nós esperamos por ti, se te sentires mal telefona que o pai vai-te logo buscar. - Disse eu.



terça-feira, 10 de abril de 2012

TIAGO ALVES- MEU QUERIDO FILHO

TIAGO ALVES- MEU QUERIDO FILHO

É difícil passar uma hora que não pense em ti………

É difícil não recordar a pessoa que és, sim que és pois em mim contínuas vivo e no teu melhor.

É difícil aceitar tudo o que estamos a passar com esta tua ausência meu Filho.

Foi tudo tão rápido, foi tudo tão complicado. Cada noticia pior que a anterior, cada exame, cada análise, um aperto contínuo no peito.

Meu grande Amor, meu FILHO.

Como foi possível estar tudo a acontecer á frente dos nossos olhos e não nos termos apercebido da gravidade, como?

Janeiro 2010, depois do Natal e uma passagem de Ano cheia de chuva e frio, passagem de Ano essa que a Andreia veio ter com o Tiago a Coimbra, e ele pediu á mãe para a maquilhar pois queria que ela ficasse uma princesa, de linda que é. Assim foi, a noite foi passada em casa de uns amigos e, o 2009 para 2010 na Figueira-da-Foz, debaixo de uma chuvada fria e muito desagradável.

-Vamos embora, está uma noite sem graça e esta gente só quer beber e ficar com os copos, não me agrada. - Dizia o Tiago. Voltámos para casa.

Janeiro dia 14, o 18º aniversário que só foi comemorado em casa por nós pois era quarta-feira, e sábado, dia 16 era o torneio “Memorial António Matias”. O almoço de aniversário ficou marcado para Domingo dia 17, onde foi comemorado em simultâneo com o colega Antoine, que também ele fazia 18 anos. Assim, o Tiago com o seu coração e não querendo magoar ninguém, organizou e partilhou a festa, bem como o próprio bolo de aniversário com o colega.

Dia 16 de Janeiro, “Memorial António Matias”. António Matias foi o primeiro mestre e treinador do Tiago que havia falecido dois anos antes. António Matias, treinador da selecção nacional, quando informámos que estávamos para nos mudar para Coimbra, pediu um dia á mãe, Margarida, para não tirarmos o Tiago do judo porque para além de um jeito nato que ele encontrava no Tiago, havia uma particularidade, ele apesar de ser destro, fazia judo á esquerda que era uma mais-valia pois havia poucos atletas a conjugar esquerda e direita. Assim o Tiago continuou no judo e apesar dos seus dez anos na altura, já amava de paixão.

Resultado do torneio, primeiro lugar no pódio, medalha de ouro que dedicou ao seu saudoso mestre. Regressámos a Coimbra em festa.

Domingo dia 17, almoço de festa de aniversário.

- Deixe o Tiago beber uma cerveja. - Pedia uma colega á mãe.

-Ele não está proibido, se quiser e lhe apetecer pode beber. - Respondeu a mãe Guida. Assim fez, pediu uma cerveja que acabou por não beber toda. Álcool e tabaco não são compatíveis com o desporto, defendia. Além de não lhe saber bem, também detestava as figuras que algumas pessoas fazem com umas bebidas a mais, enfim, á que respeitar, cada um é livre de fazer o que quiser, ele não o fazia por vontade própria.

Após este resultado, dedicou-se de corpo e alma aos treinos (bidiários), pois o próximo torneio seria o campeonato nacional de juniores.

Na escola estávamos a assistir de perto a um surpreendente trabalho. 12º Ano e as melhores notas que alguma vez tinha conseguido ao longo do seu percurso de estudante. Não o via estudar muitas ou poucas horas, não o via preocupado com os testes.

-Tiago, os testes? Tiago a matéria tem de ser vista um pouco todos os dias. -Não te preocupes mãe que eu tenho tudo controlado e, o 12º ano vai ser feito á primeira, não te preocupes. E assim foi. Eu como que de uma brincadeira se tratasse dizia-lhe várias vezes, tens de ser muito inteligente, não estudas, não te vejo preocupado e tiras as notas que tiras, tens que ser muito inteligente. Sorria……

Fomos á escola, para ter uma reunião de rotina com a directora de turma. Como estava o Tiago na escola? Nada a apontar, dizia, pontual, não faltava, não dá más respostas, muito educado e com um grande coração. Que se pode dizer, se estudasse um pouco mais seria um aluno excelente. Há opções, e com a carga horária, seja, escola e treinos até às 22,horas, é impossível pedir mais.

Recebeu de prenda de aniversário entre outras, o livro de Lance Armstrong que leu em três dias e voltou a lê-lo. Grande atracção pelo conteúdo. Passou a comprar livros de vários temas e a devorá-los como nunca havia feito. Leu mais livros em três ou quatro meses do que na sua vida toda …

quinta-feira, 1 de março de 2012

Mano "Telmo"...

Telmo Alves – Capitão da equipa sénior da AAC

“O Tiago falava muito comigo. Confidenciava-me algumas coisas. Ele chamava-me o mano Telmo, porque ambos éramos Alves de apelido.

O Tiago no treino era dedicado, disciplinado. O objectivo dele era os jogos. Ele uma vez falou comigo, ainda era juvenil, no parque verde, e disse que tinha o sonho de ir aos Jogos. Até lhe disse que era muito complicado, que tinha que trabalhar muito. Ele dizia que queria mesmo ir, que não se importava de não ganhar nenhum combate, mas queria lá chegar.

Quando estive com ele no hospital, encontrei-o muito fragilizado, mas com aquela vontade de viver. Ele até me disse que não sabia a categoria em que ia competir quando ficasse recuperado. Disse que tinha muitas saudades do pessoal.

O Tiago era o mais jovem na ida a Valência, à taça dos campeões europeus. Ele tinha medo de errar, de não ganhar os combates, de o pessoal ficar chateado. Tanto que quando perdia ele vinha pedir desculpa ao pessoal. Ele foi o primeiro a ganhar combates da equipa.

O Tiago quando decidiu parar para fazer os exames, eu fui a primeira pessoa com quem ele falou, mesmo antes dos treinadores, e que me disse que ia parar uma ou duas semanas. Eu até fiquei admirado e até perguntei “tu vais parar duas semanas, então tu querias ir a Ucrânia” e estava naquela de treinar, treinar para preparar o campeonato da Europa. Eu na altura estranhei, parar duas semanas quando estava a treinar tão forte. Foi quando ele me contou que não se sentia bem e que estava com aqueles problemas. Eu perguntei o que o médico achava e ele disse que o médico disse que podia ser muita coisa, mas que não queria estar a dizer o que é que era, que queria esperar primeiro pelos resultados. Só depois de ter falado comigo é que foi avisar o Jocá e o João Neto que ia parar duas semanas.”


Pedro Serralheiro – Médico, amigo e ex-treinador do Tiago

“Eu conhecia o Tiago há bastante tempo. O Tiago já era judoca em Lisboa e quando veio para Coimbra, o António Matias (treinador dele na altura) referenciou-o para a AAC. Na altura eu era treinador e atleta de Judo na AAC. Ele ingressou no clube e começou a praticar Judo com o Nuno e, por vezes, comigo.

Eu tive conhecimento da doença do Tiago pelo Nuno. Telefonei ao Tiago e ele estava nesse preciso momento no IPO de Lisboa em consulta, onde eu também estava a realizar um estágio profissional. Posteriormente o Tiago foi internado e como eu estava no Instituto a trabalhar, tive a oportunidade de o acompanhar diariamente, não como médico mas sim como amigo. Sempre que tinha oportunidade passava por lá, falava um bocado com ele, com os pais e com o irmão.

Eu conhecia o Tiago como um atleta, com uma estrutura física completamente diferente daquela que ele tinha quando foi internado no IPO. Foi muito penoso ver a evolução dele e a sua crescente debilidade ao longo dos dias.

Acho que não é nada comum o Tiago, já doente, ter conseguido alcançar uma medalha numa competição internacional. Esta é uma prova de que ele era uma pessoa extremamente lutadora e que sofria imenso para alcançar os objectivos a que se propunha.

"Um verdadeiro Campeão”.

( Um muito obrigado a todos os amigos que tiveram a coragem de deixar os seus testemunhos e, muito obrigado aqueles que gostariam mas, não tiveram oportunidade de o fazer. Horácio Alves)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

BONS AMIGOS













“O Tiago chegou a AAC em Setembro de 2003, e uma das coisas que a mãe, que o acompanhava na altura e me perguntou se nós tínhamos competições… porque o Tiago, uma das coisas que ele mais gostava era a competição. Era uma forma, talvez, de ele também se transcender a ele próprio. Era um atleta exemplar, treinava empenhado, ia sempre, os dias todos, muito educado. Mais tarde, vem a ser campeão nacional de Juvenis. Nessa altura nós fazíamos muita competição, muitos estágios. Tecnicamente não era uma estrela, mas era um miúdo tão empenhado que conseguiu ir mais longe que muitos atletas que tecnicamente eram muito superiores. A capacidade, o espírito de sacrifício, a vontade que ele tinha de vencer, fizeram dele um guerreiro e um campeão. De tal forma que no ano a seguir a ser campeão nacional, em esperança não se classificou, e continuou sempre a treinar e a lutar, e no ano seguinte foi novamente campeão nacional. Conseguiu nunca desvalorizar nos maus momentos e voltar a triunfar mais tarde.

Tenho muitas histórias com ele, a nível de camaradagem. Lembro-me que pelo menos uma vez por ano íamos para fora, e havia sempre aquela coisa de dormirmos fora. Estávamos em Salamanca em 2004, ele ficou em segundo lugar e nós dormimos num tapete de judo em sacos cama. Depois no ano a seguir em 2005 fomos a Madrid. Era sempre uma maluqueira com os colegas. Sempre um bom espírito de equipa. Fez muitas flexões de braços quando se portava mal. Ás vezes, quando eles se portavam mal, enchiam todos ao mesmo tempo, e muitas vezes falávamos, passado muitos anos, não era das classificações que tínhamos, era daquela vez que enchemos todos e que os gelados até derreteram na mão do Cavaco.

Entretanto fez-se um homem. Quem fez a preparação dele para cinto negro fui eu, e fui eu que fiz o exame com ele para cinto negro . Estávamos neste momento, embora já não fosse meu atleta, a preparar o exame para 2ºDan, eu ia ser novamente o Uke dele, mas infelizmente não deu tempo.”


Luís Mendes – Amigo e colega de treino do Tiago

“Conheci o Tiago desde que ele veio de Lisboa. Sempre foi muito competitivo, com muita garra e com vontade. Foi ele que me ajudou a integrar-me na selecção e a estar mais a vontade com as pessoas da selecção e com alguns treinadores. Foi um grande companheiro de quarto e grande amigo nos estágios e provas. Nas provas concentrava-se muito e era muito competitivo. Quase só via a competição, não via mais nada à volta. Puxava muito por nós quando nós estávamos a competir e a treinar. Estava sempre a querer mais. Treinar mais, entrar em luta connosco para puxar mais por nós, e era muito bom. Foi sempre uma pessoa com quem consegui conversar bem e éramos muito amigos. Era um dos meus melhores amigos. Na escola não conseguia ter muitos amigos, era só no judo, e ele foi sempre aquela pessoa em quem eu me consegui apoiar. Acho que faz falta lá na AAC, e a mim, e a todos nós. Dizia sempre para fazer mais ganchetas porque gostava muito de fazer ganchetas. Tinha sonhos de ser olímpico e queria que eu também fosse mas noutra categoria. Nunca competi com ele, mas fizemos nacionais de equipas, foi muito bom. Combatemos quase um ao lado um do outro. Ele puxava muito mais, estava sempre ao nosso lado quase como se fosse treinador e conhecíamo-nos bem e era muito bom para os dois, estarmos quase um ao lado do outro a combater.”