sábado, 1 de dezembro de 2012

Tem que se poder fazer alguma coisa...


Voltámos para casa, durante o percurso não falámos nada, ou pelo menos não me lembro. Chegámos, abri o portão, parei o carro, estava um calor insuportável, entramos em casa e o Tiago muito devagar subiu para o seu quarto. E, então, chorou, gritou, gritou, num desespero total num sofrimento sem fim, o nosso teto tinha caído, o nosso filho estava a explodir. A Guida subiu, foi ter com ele, ela também lavada em lágrimas, sangrando, sangrando pelo coração de mãe, sangrando pelo seu filhinho amado, sangrando pela maior paixão da sua vida. Pediu á mãe, por favor que o deixa-se sozinho, queria estar sozinho. A mãe desceu, vagueávamos os dois pela casa com a cabeça entre as mãos, olhávamos para o nada, nada era tudo o que conseguíamos ver, nada, a nossa vida estava a ficar sem nada.
Ouvia-mos cá em baixo a conversa ao telefone com a Andreia, a sua namorada, muito envergonhado como se culpa tivesse, chorava… choravam os dois, os seus sonhos de meninos estavam a ser interrompidos, uma dor, um desgosto, uma tristeza. Estiveram horas ao telefone sem parar de chorar nem por um só momento, nós, igualmente. Impotentes, mas o que é que nós podemos fazer? Tem que se poder fazer alguma coisa, não é possível…
Telefonámos ao Rui, o irmão, tem agora vinte e oito anos, quando o Tiago nasceu o Rui tinha dez anos, viveu a gravidez do irmão na maior das felicidades. Foi o Rui que escolheu o nome completo do irmão. O Rui sempre foi um ídolo para o Tiago. Era um amor bom de ver, muito bom.
Ficou desfeito com o telefonema, não conseguiu mais descansar, não conseguiu mais viver a vida dele, passou a viver praticamente só para o irmão.
Telefonámos para o resto dos familiares, amigos e, sobretudo para os amigos e colegas da AAC-Judo. Os colegas da secção de Judo foram incansáveis. Ficaram todos, sem excepção de rastos, o Tiago sempre foi muito querido na secção, não só como atleta mas sobretudo como pessoa.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O pior dia da minha vida


Segunda-feira, 21 Junho 2010
Uma vez mais lá estava-mos nós no HUC, desta vez para irmos com o Tiago tirar os agrafos, fazer os pensos tanto da cicatriz como dos drenes. Já na sala de pensos, a enfermeira muito simpática convidou-nos a sair para poder estar mais á vontade com o Tiago. Alguns instantes depois chegou a Dra. Dulce que nos apresentou a enfermeira. Terminado o penso, dirigimo-nos para uma pequena salinha portas meias com a enfermaria, pediu para nos acomodarmos, o Tiago sentou-se, cansado, fraquinho e muito apreensivo em frente á secretária, a mãe Guida sentou-se ao lado e eu fiquei em pé a traz dos dois. Eu e a mãe, nervosos, com os corações a sangrar, o estômago colado á boca que chegava a dar vómitos e, o pior, esse ainda estava para chegar. A Dra. Dulce levantou os olhos do processo, olhou nos olhos do nosso filho e….
-Tiago, tu estás muito doente, o que tu tens é muito grave – uma longa pausa, levanta a cabeça de novo – Tiago, tu tens um cancro no estômago.
Meu querido filho, tinha acabado de morrer… Uma tristeza sem fim, chorava, fraquinho que até a força para gritar lhe faltou, chorou quase em silêncio. Nós, nós chorávamos compulsivamente, a médica deixava que as lágrimas se transformassem em pequenas gotas no canto dos olhos vermelhos pois eticamente não era suposto o médico chorar em frente ao paciente. E o meu filho! O que estaria a sentir o meu filho? A que velocidade estavam a passar os pesadelos na sua cabecinha? Como eu queria estar no lugar dele… Nunca se devia dar uma notícia destas a um filho e, um pai a assistir a todo este sofrimento, impotente, sem saber o que fazer, ou simplesmente, sem poder fazer nada. Não te quero ver sofrer, mas como vou trocar o lugar contigo, como?
O que o meu filho estava a pensar veio, mais tarde, a dar-nos uma pequeníssima ideia no seu blog.
O dia 21 de Junho de 2010 foi para mim o pior dia da minha vida. Foi o dia em que me tiraram a minha pessoa. A sério, neste momento eu sou uma pessoa totalmente diferente.”

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Não chores Pai...


Domingo, 20 de Junho 2010
Após uma noite agitada, com sonhos penosos, insónias, dores, pensamentos do mais terrível que um miúdo de 18 anos pode ter, não almoçou. Pouco comeu o dia todo, não tinha apetite, só tristeza, muita tristeza. Ligou a sua guitarra, tocou um pouco cá em baixo, na sala pois não tinha força suficiente para subir e descer as escadas que davam para o seu quarto. O animo era pouco, estava contente mas com pouca vontade. Agarrámos nos os três no sofá da sala, não nos conseguíamos afastar do nosso tão amado filho, queria-mos pegar-lhe ao colo, protege-lo, ampará-lo, salvá-lo de todos os males como sempre lhe prometíamos quando era pequenino.
-Não chores Pai, ficas muito feio quando choras. - Dizia…
O nosso coração não estava a aguentar, não conseguíamos estar a assistir a tudo o que se estava a passar, não lhe podíamos dizer o que já sabíamos, dor, uma dor que desfazia tudo por dentro, as nossas cabeças rebentavam, não nos era possível raciocinar, o pesadelo já mais iria terminar. Nunca mais acordava, acorda! Acorda que tudo isto é um mau sonho, é um pesadelo. Não, não era um mau sonho, estava mesmo a acontecer, o nosso filho Tiago, estava muito, muito doente.
Não, não quero, não pode ser. Porquê, porquê, não, não, o nosso filho não. Que fez esta criança de mal? Nada, só o bem. Não, não, não...
-Mãe, Mãeee.- Gritou ao inicio da noite com vómitos. Corremos para junto dele que já á algum tempo dormia no quarto mesmo ao lado do nosso.
 Em Janeiro, mais ao menos, começou a dormir no quarto ao nosso lado, o seu quarto era no primeiro piso, onde o Tiago tinha o seu mundo.
-Vens dormir cá para baixo? – Perguntávamos.
-Sim, apetece-me ficar aqui mais próximo de vocês. – Dizia.
A mãe sempre achou estranho, várias vezes comentou e repetidamente me dizia.
-O Tiago não anda bem, passa-se qualquer coisa.
Quando chegámos junto do Tiago, algo que demorou segundos, estava de joelhos na cama com a cabeça para baixo a vomitar um liquido vermelho.
-Oh não, sangue não mãe, sangue não, por favor sangue não. – Dizia chorando imenso.
-Meu filho, por favor acalma-te, por favor, não é sangue, é o iogurte com a polpa de morango que tem essa cor avermelhada, acalma-te meu amor. – Tentávamos nós acalmá-lo. Era sangue? Não sei, é possível. Meu querido filho. Acalmámo-lo, estava transpirado, pálido muito cansado, exausto e, muito, muito assustado e com medo
Dormiu o resto da noite com a mãe, mal, muito mal, aliás como todas as noites a partir daí.
Levava as noites desde então a dizer á mãe, baixinho, enquanto dormiam.
-Mãe, amo-te muito, amo-te muito.
-Também te amo muito meu querido, agora tenta descansar meu amor.
No dia seguinte iríamos ao HUC, ter com a Dra. Dulce, para o informar da sua doença.

sábado, 1 de setembro de 2012

A viola eléctrica


A Fernanda e o Vivaldo, vieram a Coimbra passar o fim de semana connosco, para nos apoiarem e fazerem alguma companhia. Desde que o Tiago adoeceu, estiveram quase todas as semanas presentes, eles moram em Setúbal, mas a distancia nunca os impediu.
A Fernanda é irmã da minha mãe, o Vivaldo é o marido. Infelizmente nunca tiveram filhos, então, são os padrinhos de todos os sobrinhos, inclusive, eu.
De manhã o Tiago, fraco e cansado porque as noites são muito penosas e difíceis, não se estava a entender com os sacos para o estoma que tínhamos comprado quando ele saiu do HUC.  
-Filho, temos de ir a Vale Formoso trocar os sacos para o estoma, nós não nos entendemos com esses e, depois vamos comprar a tua viola eléctrica… queres? -Dizia eu.
A viola já antes estava prometida, só que a ideia era comprá-la depois dos exames do 12º ano.
-Sim pai, vamos, eu tenho dinheiro junto para a viola. -Dizia o Tiago contente, mas com uma fala pausada, cansada e num tom baixinho.
-Não meu amor, o pai e a mãe oferecem-te a viola, guarda o teu dinheiro.
Nós tinha-mos que oferecer-lhe a viola, nem que fosse o último presente material, e foi.
Saímos os dois direitos a Coimbra, curva contra curva, pediu-me que fosse devagar pois sentia dores e estava a enjoar. Assim fiz, fomos falando de coisas fúteis, banais, pois nem eu nem ele tinha-mos vontade de conversar sobre a cirurgia. Fazia-mos promessas que íamos estar sempre juntos, o quanto nos amava-mos e como íamos superar mais este obstáculo.
Quando entrámos na loja de música, a senhora que nos atendeu ficou, diria quase em estado de choque, pois conhecia muito bem o Tiago pelas horas que ele passava no estabelecimento perguntando preços, modelos, amplificadores, pedais e todos os aparelhos e utensílios que ele pensava comprar. Ele estava muito magro, muito pálido, curvado com dores,  com o incomodo da sonda gástrica, do saco do estoma, dos agrafos e os adesivos que lhe esticavam a pele.
Sabia exactamente o que queria, passou ao gabinete do fundo onde o ensinaram a ligar a guitarra ao amplificador, afinaram os aparelhos e recebeu mais umas quantas instruções. A senhora que tinha ficado comigo a fazer a factura estava ansiosa por saber o que se estava a passar com o Tiago. Conhecia-o, sempre o achou muito educado e um miúdo muito querido, o que se estava a passar? Insistia. Não tinha vontade nenhuma de conversar com pessoas desconhecidas, limitei-me a dizer que tinha feito uma operação e estava muito doente.
Carreguei o material para o carro que estava mesmo á porta, amparei o meu filho e, voltámos para casa. Quando chegou estava feliz, talvez só contente mas de tal modo exausto que não quis mostrar logo a guitarra á mãe, preferiu ir deitar-se e descansar um pouco.   

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

OS MEUS ÓCULOS DE SOL...


Dia 18 de Junho, sexta-feira um calor de 35º de temperatura neste verão infinitamente quente, dia da gravação da música. Pedimos que não estivesse muito tempo de pé e que bebesse água.
Subiu devagar as escadas com a sua viola, cá em baixo eu e a mãe, lavados em lágrimas, pois no dia anterior tinham-nos informado da doença do Tiago e que a cura ou tratamento era praticamente impossível.
 Levámos o tempo de espera a chorar agarrados um ao outro com um aperto sem fim no coração, com um aperto no peito que ardia, rasgava, sem forma de sabermos o que nos estava a acontecer.
Aguardámos uma, duas, três horas. Cada minuto era uma eternidade, três horas um inferno. Por fim desceu as escadas acompanhado pelo Gil e o resto dos amigos. Muito cansado, chega junto de nós.
-“Oh, esqueci-me dos meus óculos de sol”….
-Deixa, o pai vai buscá-los.
-“Não, eu vou, espera só mais um pouco por favor.
Voltámos para casa, estava cansado, muito cansado. Deitou-se no sofá, triste, muito triste, não vertia uma lágrima mas o seu olhar sem brilho e o seu coração com uma tristeza sem fim, só olhava para o chão.
-Filho, não olhes para o chão, assim não meu Amor. - Dizia-mos nós repetidamente. Mas no seu interior, o sofrimento não o deixava reagir de outra maneira, muita tristeza, muita infelicidade.

domingo, 1 de julho de 2012

NAAAÃO!



-Não, não é verdade, vocês não podem estar a falar verdade, estão a dizer-me que o meu filho vai morrer, não, o meu filho não pode morrer, têm que fazer alguma coisa, tem que ser feita alguma coisa, NAAAÃO! – Gritava eu histérico, a chorar, a berrar naquele gabinete. Neste momento já todos chorava-mos naquela pequena sala, inclusive o Professor; dizia que poderia imaginar a nossa dor pois tinha um neto com a idade do Tiago e, nem queria pensar se tal coisa lhe acontecesse.
 Não, ninguém consegue imaginar esta dor, só quem por ela está a passar. Ninguém consegue imaginar o que é que uma mãe e um pai sentem, ou não, porque não se consegue explicar a intensidade da dor, o mau estar, os suores, os arrepios, a vontade de vomitar quando alguém vindo do nada nos diz…o vosso filho vai morrer. Só alguns sabem ao que me refiro, á dor, ao sentimento que ainda hoje não consigo explicar. É de tal forma forte e violento que não encontro ninguém que consiga descrever ferida que sangra constantemente e o sangue não se vê!
A Guida, minha querida e amada esposa chorando tentava acalmar-me:
-Pára, por favor pára, expliquem-me tudo por favor, não pode ser, digam-me o que se passou, digam-me o que podemos fazer, digam-me que há alguma esperança.
-GUIDA, ELES ESTÃO A DIZER-NOS QUE O NOSSO FILHO, O NOSSO TIAGO VAI MORRER, MORRER NÃO ESTÁS A PERCEBER, O NOSSO FILHO VAI MORRER. – Gritava eu em desespero como se os meus gritos alterassem alguma coisa. Eu só queria que me dissessem que morrer não, o meu Tiago não ia morrer. Mas isso ninguém nos disse, bem pelo contrário. Quando a Guida perguntou quais eram as possibilidades, a Dra. Dulce respondeu-lhe que ia estudar o problema mais a fundo e que depois dizia alguma coisa. Logo de imediato o Professor entreviu.
-Atenção, é muito importante ter em conta a qualidade de vida com que estes pacientes ficam, sabemos que a proporção de sobrevivência é de um (1%) contra noventa e nove (99%) por cento.
Saímos, cá fora no corredor a Dra. Dulce dirigiu-se a nós, que estava-mos de rastos, como se um comboio nos tivesse passado por cima e, disse-nos:
-Eu vou tentar tudo por tudo, vocês estão dispostos a ir até onde? Pode ser que tenhamos que ir para o estrangeiro, o que me dizem?
Os dois ao mesmo tempo, atropelando o diálogo um do outro, quisemos ali, naquele momento deixar bem claro que tudo, para todo o lado, fosse para onde fosse, estava-mos dispostos a ir até ao fim do mundo.
Pediu-nos que fosse-mos para casa, ela depois telefonava, e além disso o Tiago na segunda-feira tinha que vir fazer o penso e se nós  quisesse-mos ela falava com Ele. Assim fizemos, como poderíamos nós dizer á pessoa que mais amamos, na flor da idade e com tamanha vontade de viver que tem um cancro e vai morrer! Como?   

sexta-feira, 1 de junho de 2012

17 JUNHO 2010


No dia anterior, dia 17 de Junho, quando andávamos a fazer algumas compras para casa; pois com estes dias todos de Hospital, comíamos nas cantinas e nos bares, por vezes algumas coisas daquelas máquinas onde enfiamos as moedas e depois temos que dar dois murros para podermos ter direito ao que escolhemos. Não tínhamos nada em casa e o frigorifico estava vazio. 
Enquanto percorríamos os corredores do supermercado para a frente e para trás, pois as nossas cabeças não conseguiam lembrar-se do que realmente nos fazia falta, eis que o telefone da Guida toca. Uma aflição para o encontrar como sempre acontece nas malas das senhoras, pensávamos que era o Tiago, pois tinha ficado em casa com uma funcionária que lá ia todas as semanas. Não, não era, o telefonema era do Hospital, era a Dra. Dulce a informar que os resultados das biopsias já tinham chegado e, queria falar connosco nesse dia á tarde.
Voltámos para casa, nervosos com os corações apertados mas sempre pensando que tratamentos iriam administrar ao nosso filho e, que doença poderia ser aquela afinal. Depois de almoço, tivemos que lhe dizer que íamos á contabilidade, não nos demorávamos era só um bocadinho, para ele ficar a descansar que a senhora ficava com ele e, se fosse necessário telefonavam-nos que nós vínhamos logo.
Entramos no hospital, subimos ao quinto piso, serviço de gastro. Dirigimo-nos ao balcão e dissemos que éramos os pais do Tiago e tínhamos uma reunião com a Dra. Dulce. Entretanto passa por nós o Dr. Bruno, que tinha assistido o Tiago quando o Professor o mandou internar.
-Boa tarde, o Professor e a Dra. Dulce estão ao fundo na sala de reuniões, eu também lá vou estar, nós já vos chamamos.
Agarrámo-nos um ao outro, tremia-mos, não sabíamos o que pensar, questionávamo-nos constantemente, por fim, chamaram-nos para a pequena sala ao fundo do corredor. Entrámos, pediram que nos sentasse-mos e, lá estavam o Professor, sentado em frente a uma velha secretária coberta de livros, a Dra. Dulce no canto esquerdo ao lado da janela encostada a um armário arquivador e o Dr. Bruno de pé frente ao Professor entre nós e a Dra. Dulce. Olharam várias vezes uns para os outros tentando decidir entre eles quem falaria em primeiro. A Dra. Dulce tentou fazer uma breve introdução dizendo que o resultado das biopsias e dos exames eram complicados e que o problema era grave. As nossas cabeças iam ficando cada vez mais confusas, o nosso estado de nervos estava completamente fora de controlo, até que num repente o Professor virou-se para nós e disse:
-O Tiago está muito doente, tem uma doença muito rara em crianças da idade dele, o Tiago está com um cancro no estômago com metástases espalhadas pelo peritoneu, infelizmente é dos de pior estripe e o facto de ele ser muito jovem só o prejudica pois as células malignas desenvolvem-se a uma velocidade incontrolável. Lamentamos muito.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Assim é que eu vou bem


Nos intervalos da Escola, quando tinha mais de uma hora, passava-os na livraria Bertrand. Às quartas-feiras num intervalo de três tempos ia fazer natação, sozinho, para o Pavilhão Multiusos de Coimbra, onde lhe cobravam dois euros para poder treinar, mesmo assim não se importava, em vez de andar a vaguear pelo choping como tantos outros preferia ir nadar. Às quintas-feiras, entre o intervalo da escola e o treino Federativo, participava num grupo de música para o qual foi convidado. Nunca andou em nenhuma escola de música, aprendeu sozinho, a praticar em casa e a estudar pelas cifras da internet. Um génio. Escreveu uma letra e música, (Assim é que eu vou bem …) que veio a gravar quinze dias depois da primeira operação no HUC.
"A distância de casa ao café
é maior do que consigo suportar
de carro é mais rápido e assim é que eu vou bem

O caixote do lixo está longe da minha mão
...É tão fácil para mim deitar o papel ao chão
desta forma é mais rápido e assim é que eu vou bem

E como gosto de estar no meu sofá
tanto prazer que me dá
e assim é que eu vou bem
não incomodo ninguém……
e se alguém me disser "faz o bem" eu direi
esquece e vem tu também
e assim ficamos bem

passo horas no banho a cantar
com agua quente para poder relaxar
desta forma é tão bom e assim é que eu vou bem..."
(Tiago Alves-2010)

 Foi gravar com dois drenos, um saco ligado ao intestino e os agrafos às dezenas de uma barriga aberta desde o externo até á zona púbica. Não disse nada aos colegas de música. Esperei á porta com a mãe, doidos de preocupação.
- “Pai, Mãe, hoje está marcada a gravação da minha música, a música que eu tenho trabalhado tanto para a ouvir gravada, por favor, eu tenho que ir.”
-Meu Amor estás muito fraquinho, são muitas horas, não te podes cansar tanto meu Filho. - Dizia a mãe,
-“Por favor mãe, por favor …”
-Vamos sim, o pai leva-te a viola; vamos devagar e nós esperamos por ti, se te sentires mal telefona que o pai vai-te logo buscar. - Disse eu.



terça-feira, 10 de abril de 2012

TIAGO ALVES- MEU QUERIDO FILHO

TIAGO ALVES- MEU QUERIDO FILHO

É difícil passar uma hora que não pense em ti………

É difícil não recordar a pessoa que és, sim que és pois em mim contínuas vivo e no teu melhor.

É difícil aceitar tudo o que estamos a passar com esta tua ausência meu Filho.

Foi tudo tão rápido, foi tudo tão complicado. Cada noticia pior que a anterior, cada exame, cada análise, um aperto contínuo no peito.

Meu grande Amor, meu FILHO.

Como foi possível estar tudo a acontecer á frente dos nossos olhos e não nos termos apercebido da gravidade, como?

Janeiro 2010, depois do Natal e uma passagem de Ano cheia de chuva e frio, passagem de Ano essa que a Andreia veio ter com o Tiago a Coimbra, e ele pediu á mãe para a maquilhar pois queria que ela ficasse uma princesa, de linda que é. Assim foi, a noite foi passada em casa de uns amigos e, o 2009 para 2010 na Figueira-da-Foz, debaixo de uma chuvada fria e muito desagradável.

-Vamos embora, está uma noite sem graça e esta gente só quer beber e ficar com os copos, não me agrada. - Dizia o Tiago. Voltámos para casa.

Janeiro dia 14, o 18º aniversário que só foi comemorado em casa por nós pois era quarta-feira, e sábado, dia 16 era o torneio “Memorial António Matias”. O almoço de aniversário ficou marcado para Domingo dia 17, onde foi comemorado em simultâneo com o colega Antoine, que também ele fazia 18 anos. Assim, o Tiago com o seu coração e não querendo magoar ninguém, organizou e partilhou a festa, bem como o próprio bolo de aniversário com o colega.

Dia 16 de Janeiro, “Memorial António Matias”. António Matias foi o primeiro mestre e treinador do Tiago que havia falecido dois anos antes. António Matias, treinador da selecção nacional, quando informámos que estávamos para nos mudar para Coimbra, pediu um dia á mãe, Margarida, para não tirarmos o Tiago do judo porque para além de um jeito nato que ele encontrava no Tiago, havia uma particularidade, ele apesar de ser destro, fazia judo á esquerda que era uma mais-valia pois havia poucos atletas a conjugar esquerda e direita. Assim o Tiago continuou no judo e apesar dos seus dez anos na altura, já amava de paixão.

Resultado do torneio, primeiro lugar no pódio, medalha de ouro que dedicou ao seu saudoso mestre. Regressámos a Coimbra em festa.

Domingo dia 17, almoço de festa de aniversário.

- Deixe o Tiago beber uma cerveja. - Pedia uma colega á mãe.

-Ele não está proibido, se quiser e lhe apetecer pode beber. - Respondeu a mãe Guida. Assim fez, pediu uma cerveja que acabou por não beber toda. Álcool e tabaco não são compatíveis com o desporto, defendia. Além de não lhe saber bem, também detestava as figuras que algumas pessoas fazem com umas bebidas a mais, enfim, á que respeitar, cada um é livre de fazer o que quiser, ele não o fazia por vontade própria.

Após este resultado, dedicou-se de corpo e alma aos treinos (bidiários), pois o próximo torneio seria o campeonato nacional de juniores.

Na escola estávamos a assistir de perto a um surpreendente trabalho. 12º Ano e as melhores notas que alguma vez tinha conseguido ao longo do seu percurso de estudante. Não o via estudar muitas ou poucas horas, não o via preocupado com os testes.

-Tiago, os testes? Tiago a matéria tem de ser vista um pouco todos os dias. -Não te preocupes mãe que eu tenho tudo controlado e, o 12º ano vai ser feito á primeira, não te preocupes. E assim foi. Eu como que de uma brincadeira se tratasse dizia-lhe várias vezes, tens de ser muito inteligente, não estudas, não te vejo preocupado e tiras as notas que tiras, tens que ser muito inteligente. Sorria……

Fomos á escola, para ter uma reunião de rotina com a directora de turma. Como estava o Tiago na escola? Nada a apontar, dizia, pontual, não faltava, não dá más respostas, muito educado e com um grande coração. Que se pode dizer, se estudasse um pouco mais seria um aluno excelente. Há opções, e com a carga horária, seja, escola e treinos até às 22,horas, é impossível pedir mais.

Recebeu de prenda de aniversário entre outras, o livro de Lance Armstrong que leu em três dias e voltou a lê-lo. Grande atracção pelo conteúdo. Passou a comprar livros de vários temas e a devorá-los como nunca havia feito. Leu mais livros em três ou quatro meses do que na sua vida toda …

quinta-feira, 1 de março de 2012

Mano "Telmo"...

Telmo Alves – Capitão da equipa sénior da AAC

“O Tiago falava muito comigo. Confidenciava-me algumas coisas. Ele chamava-me o mano Telmo, porque ambos éramos Alves de apelido.

O Tiago no treino era dedicado, disciplinado. O objectivo dele era os jogos. Ele uma vez falou comigo, ainda era juvenil, no parque verde, e disse que tinha o sonho de ir aos Jogos. Até lhe disse que era muito complicado, que tinha que trabalhar muito. Ele dizia que queria mesmo ir, que não se importava de não ganhar nenhum combate, mas queria lá chegar.

Quando estive com ele no hospital, encontrei-o muito fragilizado, mas com aquela vontade de viver. Ele até me disse que não sabia a categoria em que ia competir quando ficasse recuperado. Disse que tinha muitas saudades do pessoal.

O Tiago era o mais jovem na ida a Valência, à taça dos campeões europeus. Ele tinha medo de errar, de não ganhar os combates, de o pessoal ficar chateado. Tanto que quando perdia ele vinha pedir desculpa ao pessoal. Ele foi o primeiro a ganhar combates da equipa.

O Tiago quando decidiu parar para fazer os exames, eu fui a primeira pessoa com quem ele falou, mesmo antes dos treinadores, e que me disse que ia parar uma ou duas semanas. Eu até fiquei admirado e até perguntei “tu vais parar duas semanas, então tu querias ir a Ucrânia” e estava naquela de treinar, treinar para preparar o campeonato da Europa. Eu na altura estranhei, parar duas semanas quando estava a treinar tão forte. Foi quando ele me contou que não se sentia bem e que estava com aqueles problemas. Eu perguntei o que o médico achava e ele disse que o médico disse que podia ser muita coisa, mas que não queria estar a dizer o que é que era, que queria esperar primeiro pelos resultados. Só depois de ter falado comigo é que foi avisar o Jocá e o João Neto que ia parar duas semanas.”


Pedro Serralheiro – Médico, amigo e ex-treinador do Tiago

“Eu conhecia o Tiago há bastante tempo. O Tiago já era judoca em Lisboa e quando veio para Coimbra, o António Matias (treinador dele na altura) referenciou-o para a AAC. Na altura eu era treinador e atleta de Judo na AAC. Ele ingressou no clube e começou a praticar Judo com o Nuno e, por vezes, comigo.

Eu tive conhecimento da doença do Tiago pelo Nuno. Telefonei ao Tiago e ele estava nesse preciso momento no IPO de Lisboa em consulta, onde eu também estava a realizar um estágio profissional. Posteriormente o Tiago foi internado e como eu estava no Instituto a trabalhar, tive a oportunidade de o acompanhar diariamente, não como médico mas sim como amigo. Sempre que tinha oportunidade passava por lá, falava um bocado com ele, com os pais e com o irmão.

Eu conhecia o Tiago como um atleta, com uma estrutura física completamente diferente daquela que ele tinha quando foi internado no IPO. Foi muito penoso ver a evolução dele e a sua crescente debilidade ao longo dos dias.

Acho que não é nada comum o Tiago, já doente, ter conseguido alcançar uma medalha numa competição internacional. Esta é uma prova de que ele era uma pessoa extremamente lutadora e que sofria imenso para alcançar os objectivos a que se propunha.

"Um verdadeiro Campeão”.

( Um muito obrigado a todos os amigos que tiveram a coragem de deixar os seus testemunhos e, muito obrigado aqueles que gostariam mas, não tiveram oportunidade de o fazer. Horácio Alves)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

BONS AMIGOS













“O Tiago chegou a AAC em Setembro de 2003, e uma das coisas que a mãe, que o acompanhava na altura e me perguntou se nós tínhamos competições… porque o Tiago, uma das coisas que ele mais gostava era a competição. Era uma forma, talvez, de ele também se transcender a ele próprio. Era um atleta exemplar, treinava empenhado, ia sempre, os dias todos, muito educado. Mais tarde, vem a ser campeão nacional de Juvenis. Nessa altura nós fazíamos muita competição, muitos estágios. Tecnicamente não era uma estrela, mas era um miúdo tão empenhado que conseguiu ir mais longe que muitos atletas que tecnicamente eram muito superiores. A capacidade, o espírito de sacrifício, a vontade que ele tinha de vencer, fizeram dele um guerreiro e um campeão. De tal forma que no ano a seguir a ser campeão nacional, em esperança não se classificou, e continuou sempre a treinar e a lutar, e no ano seguinte foi novamente campeão nacional. Conseguiu nunca desvalorizar nos maus momentos e voltar a triunfar mais tarde.

Tenho muitas histórias com ele, a nível de camaradagem. Lembro-me que pelo menos uma vez por ano íamos para fora, e havia sempre aquela coisa de dormirmos fora. Estávamos em Salamanca em 2004, ele ficou em segundo lugar e nós dormimos num tapete de judo em sacos cama. Depois no ano a seguir em 2005 fomos a Madrid. Era sempre uma maluqueira com os colegas. Sempre um bom espírito de equipa. Fez muitas flexões de braços quando se portava mal. Ás vezes, quando eles se portavam mal, enchiam todos ao mesmo tempo, e muitas vezes falávamos, passado muitos anos, não era das classificações que tínhamos, era daquela vez que enchemos todos e que os gelados até derreteram na mão do Cavaco.

Entretanto fez-se um homem. Quem fez a preparação dele para cinto negro fui eu, e fui eu que fiz o exame com ele para cinto negro . Estávamos neste momento, embora já não fosse meu atleta, a preparar o exame para 2ºDan, eu ia ser novamente o Uke dele, mas infelizmente não deu tempo.”


Luís Mendes – Amigo e colega de treino do Tiago

“Conheci o Tiago desde que ele veio de Lisboa. Sempre foi muito competitivo, com muita garra e com vontade. Foi ele que me ajudou a integrar-me na selecção e a estar mais a vontade com as pessoas da selecção e com alguns treinadores. Foi um grande companheiro de quarto e grande amigo nos estágios e provas. Nas provas concentrava-se muito e era muito competitivo. Quase só via a competição, não via mais nada à volta. Puxava muito por nós quando nós estávamos a competir e a treinar. Estava sempre a querer mais. Treinar mais, entrar em luta connosco para puxar mais por nós, e era muito bom. Foi sempre uma pessoa com quem consegui conversar bem e éramos muito amigos. Era um dos meus melhores amigos. Na escola não conseguia ter muitos amigos, era só no judo, e ele foi sempre aquela pessoa em quem eu me consegui apoiar. Acho que faz falta lá na AAC, e a mim, e a todos nós. Dizia sempre para fazer mais ganchetas porque gostava muito de fazer ganchetas. Tinha sonhos de ser olímpico e queria que eu também fosse mas noutra categoria. Nunca competi com ele, mas fizemos nacionais de equipas, foi muito bom. Combatemos quase um ao lado um do outro. Ele puxava muito mais, estava sempre ao nosso lado quase como se fosse treinador e conhecíamo-nos bem e era muito bom para os dois, estarmos quase um ao lado do outro a combater.”


sábado, 14 de janeiro de 2012

PARABÉNS TIAGO

Meu querido FILHO...
Faz hoje vinte anos que nasceste.
Faz hoje vinte anos que encheste os nossos corações e as nossas vidas de alegria.
A Mãe quis marcar este dia, lembrando com o coração rasgado, alguns momentos de tanta felicidade por TI vividos nestes dias "14 de Janeiro".

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domingo, 1 de janeiro de 2012

ALGUÉM QUE ME CONHECEU...

Filipa Cavalleri Serpa – Treinadora nacional dos Juniores

“O que aconteceu ao Tiago deixa-nos uma profunda tristeza, por termos lidado tão de perto com ele enquanto atleta, mas principalmente enquanto pessoa. Das vezes que tive o privilégio de estar com ele, foi sempre um atleta que mostrou empenho, sempre sério no seu trabalho e sempre com uma motivação muito grande, em querer fazer melhor. Ele era um motor de motivação em relação aos seus colegas. A ideia que eu retenho do Tiago é de uma pessoa muito esforçada, um atleta que ambicionava mais, mas principalmente uma grande motivação e que gostava daquilo que fazia. A imagem que nós podemos reter dele, pelo menos a minha imagem, é de uma atleta bastante motivado, esforçado, empenhado, e amigo do seu amigo. É com muita infelicidade e com muita tristeza que nós vemos partir alguém assim, porque é das pessoas que fazem a diferença. Mas deixa saudades porque era um atleta que realmente marcava a diferença.

Rui Fonseca

Presidente da Secção de Judo da AAC

“O Tiago estava na AAC desde os onze anos. Sempre foi um miúdo com uma grande vontade de vencer. A sua entrega aos treinos, à competição, ao Judo e a Académica foram sempre um exemplo para todos, revelando sempre um grande respeito pelos colegas e pelos mais velhos. Para além das qualidades de competidor era um excelente amigo e um excelente colega.

O seu desaparecimento foi um choque e uma enorme tristeza para todos nós.

O Tiago vai ficar para sempre nos nossos corações e a Académica v

ai homenagear o Tiago e a sua memória para as gerações futuras.”

João Abreu (Jocá) – Treinador da equipa sénior da AAC

"Era um miúdo super humilde, muito educado, respeitava toda a gente, tentava sempre conciliar todos por um bem geral, pelo bem-estar do clube, pelo bem-estar dele próprio. Tinha uma grande ambição que era ser um grande atleta no Judo, e já o era de facto. Tinha desde muito novo a ambição de ir aos jogos. Era um atleta que treinava sempre e, muito. Todos os dias estava no treino. Era o primeiro a chegar e dos últimos a sair. Era um atleta que se empenhava a 200% no treino porque tinha os objectivos dele muito bem definidos."


João Neto

Treinador da equipa sénior da AAC e do centro de alto rendimento de Coimbra

“Uma das maiores penas que eu tenho é de ter trabalhado com o Tiago só 7, 8 meses, quando eu comecei com o treino no centro de alto rendimento e depois com a Académica. Foi o atleta que até hoje foi mais dedicado, mais empenhado e com objectivos desportivos mais fortes. Ele era determinado em tudo o que fazia. Era um rapaz com muito talento, com uma óptima condição física. Via-se que tinha um futuro promissor na modalidade, para além disso tinha uma alegria sempre a treinar e vontade de trabalhar, vontade de dar mais e mais. Era mesmo impressionante. Nunca conheci ninguém assim. Isso viu-se na fase final da sua vida e da maneira como ele lutou com a doença mesmo até ao fim de uma forma que a mim, surpreendeu completamente. Nunca conheci ninguém como ele. “